domingo, novembro 21, 2010

Microcontos #2


"Em partes, toda em partes..." - concluíu.

E pensou ainda:
"Como posso partir com o todo de mim todo partido?"

Recorreu, então, àquela antiga mania de procurar benignidades no meio de toda desordem e sempre encontrar.
Obstinada nisso, procurou.

Mapeou a alma.
Rompeu amarras e avançou na compreensão do que era, então, o seu todo.

Bem...
Conquanto em muitas partes estivesse partida, e não estivesse inteira, uma intuição sobrevinda brevemente soprou na sua mente o senso certo de que nenhuma parte lhe faltava.

Ao entender-se partida, sentiu doer. Muito. Usou a inconformação absoluta para reagir em resposta a tal dor.

A intuição, contudo, instigou-a a prosseguir. Era imperativo isso. Havia algo mais ainda na sombra, oculto da compreensão.

Um insight.
"Completa." - soprou-lhe o inconsciente à consciência.

Embora em partes estivesse, o fim de tudo ainda não era. Usou a desconfiança afiada como resposta a tal compreensão.

Livrou-se de mais amarras. Fadigou o raciocínio. Fadigou.

Uma benignidade, enfim, surgiu em forma de chama tênue e cheia de conforto, feito chama de vela, na escuridão, inquieta, mas pacífica, pequena, mas ampla. Chama benigna que silencia os barulhos da mente.

O silêncio, finalmente.

Estava, sim, em partes. Mas, nenhuma parte faltava e estava completa.

Completa. Não estava inteira, mas estava completa. Benignidade.

Ao final, um sorriso no rosto. Muito discreto.
Tão discreto foi o sorriso que nem ela mesma percebeu.


- Carla Cristina Luna Accioly
Reações:

Um comentário:

  1. Que máximo, amei muito seu texto, em especial: "Completa. Não estava inteira, mas estava completa. Benignidade."
    Curioso como nós mulheres falamos e traduzimos tão bem o que se passa lá dentro de nós e como fala a nós outras que lemos, numa identificação que parece sermos uma única alma..Acho isso uma grande benção!
    Amei conhecer seu blogue, mais um cantinho para descansar e meditar..
    Pessoas como você(s) é que enriqucem meu caminhar!

    Shalom

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