domingo, julho 28, 2013

Ela, Lúcia.

A Lúcia caminhava, caminhava e caminhava devagar pelos imensos e compridos corredores do, igualmente imenso, colégio de freiras só para meninas onde estudava.
Seu uniforme?
O tradicional: saia azul marinho, de pregas, na altura do joelho, meias brancas e blusa também, sapatinho de boneca preto.
Os cabelos cor de mel, muito lisos e cortados por sua mãe na altura dos ombros, as vezes desalinhavam, mas ela não percebia. Do jeito que o vento os deixasse, assim ficava.
Em redor, crianças.
Muitas crianças.
Agitadas, correndo, ou em grupo compartilhando suas coleções de papel de carta perfumado.
*
Maioria das vezes, ela não lanchava. Ela guardava o dinheiro que sua mãe lhe dava para comprar a merenda. Fazia economias para comprar livros em papel-jornal de Agatha Christie que, quinzenalmente, chegavam na banca defronte à escola. Havia imposto para si mesma, como um bom desafio a vencer, ler um livro a cada quinze dias. Tempo em que o próximo livro chegava. Ela adora até hoje o cheiro de livros.
*
Lúcia, sozinha, andava. Era a hora do recreio. Ela só observava tudo. Somente e só. Sozinha.
Era como se toda aquela agitação fora dela acontecesse como um sonho.

Muitas vezes, ela, absorvida por determinadas cenas que achava curiosas, deixava até de escutar todo o burburinho. Eram somente ela, o silêncio e uma cena que lhe chamava a atenção.
Muitas vezes, contemplava as mil cenas acontecendo ao mesmo tempo, com toda aquela sonoridade.
Ela não percebia que estava só. Na verdade, ela era só.
De tão só, desde sempre, não se dava contas disso.
*
Apenas caminhava pela escola sem esperar o sino tocar para a volta à sala de aula.
'Vezenquando', ficava sentadinha em um canto qualquer.
Ela adorava sentar no chão.
E ouvi dizer que, até hoje, ela adora sentar no chão. Prefere chão à cadeiras.
*
O sino toca.
Lúcia escuta e vai, calmamente, formar a fila. Regulamento da escola. Era hora de voltar para a sala.
Ela estica o braço para manter a distância correta da colega da frente na longa fila de crianças. A fila era formada por ordem de altura. Ela ficava, mais ou menos, pelo meio.
Ela volta para sala. Aula recomeça.
Ela? Calada.
Era calada.
Era só.
Por que este relato não traz um diálogo sequer? Você poderia perguntar.
Ninguém falava muito com ela.
Ela era só. Repito: só.


- Carla Accioly



Reações:

10 comentários:

  1. Carlinha

    Coisa linda e deliciosa voltar lê-la!!

    #adoro #adorei #adorava #adorarei #adorando

    ResponderExcluir
  2. Então, vou tentar escrever algo bom. Eu por causa dessas redes sociais (que não são sociais) acabei achando o site de vocês (acho que foi por causa da Tininha), digo que é uma experiência incrível ler os textos de vocês pois me fazem ter esperança de existir mulheres que honram a palavra de Deus (aliás, seres humanos, raça da qual eu pertenço, porém tenho a cada dia mais raiva, honram com sensibilidade e amor a verdade da Cruz, para um Cristão que esta afastado da Comunidade Cristã que pertencia,é um bálsamo na dor . Teve um texto há pouco tempo falando sobre amor (não sei quem escreveu e realmente não lembro do nome de todas) que me fez bem pois tinha terminado um relacionamento, no qual me dói a perda até agora, vocês são incríveis...tenho tantas coisas á dizer, mas sou ruim nas palavras, perdi o hábito de escrever e fazer poesias.
    É isso, um beijo á todas e em tudo o que fizerem, Deus os abençoe. Obrigado, de coração.
    @leopanigale

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Querido Leo,
      que honra pra nós sua presença aqui.
      Vou te dizer uma coisa por todas nós, mano: buscamos, com singeleza de coração, expressarmo-nos aqui com toda honestidade diante de Deus e fico muito feliz em ver que o que fazemos com tanta simplicidade fez sentido pra você e te foi balsamo.
      Lembre de nós em suas orações, eu te peço.
      Que todo bem de nosso Deus seja sobre sua vida!
      Fique a vontade com a gente, puxa a cadeira e senta pra bater papo! A gente adora! :)

      Abraço, mano,

      Carla Accioly.

      Excluir
  3. Amei...ela se parece comigo...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que lindo!
      A Lúcia adora conhecer gente que se parece com ela!:)
      Olha, em breve, mais historias da Lúcia!

      Beijo,

      Carla.

      Excluir
  4. Sutilezas e singelezas de tempos que se perdem no espaço tempo, porém que permanecem marcados talhados em nossa memória.
    A Lúcia é um pouco de cada um de nós e de todos nós juntos!
    Amo ler-te mana
    Beijos nessa doce alma

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. "Sutilezas e singelezas de tempos que se perdem no espaço tempo, porém que permanecem marcados talhados em nossa memória." - Bem isso, mana!!! :)

      Excluir
  5. Beijo, Nohzinha!!!
    Tiamo. Fim.
    ps.: Glub...

    ResponderExcluir
  6. Muito bom, Carla com C simples! Gostei!

    Falei que ia ler e cumpri o prometido, meio que demorado, é verdade...rs...

    Abraço!
    Phabiano, com PH mesmo, complicado e velho assim ;) ...

    PS: Apesar de eu ser homem (macho, viril e forte, por sinal, é claro) sei muito bem como é ser Lúcia....rs

    ResponderExcluir

Deixe seu comentário, crítica ou observação. Queremos saber o que estamos transmitindo a você.
Mas, deixamos claro que comentários ofensivos não serão publicados.