• Apenas considerações despretenciosas - Carla Cristina

  • O menino poeta - Carlos Drummond de Andrade

  • Protesto é a forma mais legítima de lutar contra a injustiça - Maquito Pira

Mostrando postagens com marcador Autores que inspiram. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Autores que inspiram. Mostrar todas as postagens

domingo, julho 20, 2014

A Amizade

Por Rubem Alves

Lembrei-me dele e senti saudades... Tanto tempo
que a gente não se vê! Dei-me conta, com uma intensidade incomum, da coisa rara
que é a amizade. E, no entanto, é a coisa mais alegre que a vida nos dá. A beleza da poesia, da música, da natureza, as delícias da boa comida e da bebida perdem o gosto e ficam meio tristes quando não temos um amigo com quem compartilhá-las. Acho mesmo que tudo o que fazemos na vida pode se resumir nisto: a busca de um amigo, uma luta contra a solidão.

Lembrei-me de um trecho de Jean-Christophe, que li quando era jovem, e do qual nunca me esqueci. Romain Rolland descreve a primeira experiência com a amizade do seu herói adolescente. Já conhecera muitas pessoas nos curtos anos de sua vida. Mas o que experimentava naquele momento era diferente de tudo o que já sentira
antes.

O encontro acontecera de repente, mas era como se já tivessem sido amigos a vida inteira. A experiência da amizade parece ter suas raízes fora do tempo, na eternidade. Um amigo é alguém com quem estivemos desde
sempre.  Pela primeira vez, estando com alguém, não sentia necessidade de falar. Bastava a alegria de estarem juntos, um ao lado do outro.

“Christophe voltou sozinho dentro da noite. Seu coração cantava ‘Tenho um amigo, tenho um amigo!’ Nada via. Nada ouvia. Não pensava em mais nada. Estava morto de sono e adormeceu apenas deitou-se. Mas
durante a noite foi acordado duas ou três vezes, como que por uma ideia fixa. Repetia para si mesmo: ‘Tenho um amigo’, e tornava a adormecer.”

Jean-Christophe compreendera a essência da amizade. Amiga é aquela pessoa em cuja companhia não é preciso falar. Você tem aqui um teste para saber quantos amigos você tem. Se o silêncio entre vocês dois lhe causa ansiedade, se quando o assunto foge você se põe a procurar palavras para encher o vazio e manter a conversa animada, então a pessoa com quem você está não é amiga. Porque um amigo é alguém cuja presença procuramos não por causa daquilo que se vai fazer juntos, seja bater papo, comer, jogar ou tramar. Até que tudo isso pode acontecer. Mas a diferença está em que, quando a pessoa não é amiga, terminado o alegre e animado programa, vêm o silêncio e o vazio - que são insuportáveis. Nesse momento, o outro se transforma num incômodo que entulha o espaço e cuja despedida se espera com ansiedade.

Com o amigo é diferente. Não é preciso falar. Basta a alegria de estarem juntos, um ao lado do outro. Amigo é alguém cuja simples presença traz alegria independentemente do que se faça ou diga. A amizade anda por caminhos que não passam pelos programas. 

Uma estória oriental conta de uma árvore solitária que se via no alto da montanha. Não tinha sido sempre assim. Em tempos passados, a montanha estivera coberta de árvores maravilhosas, altas e esguias, que os lenhadores cortaram e venderam. Mas aquela árvore era torta, não podia ser transformada em tábuas. Inútil para os seus propósitos, os lenhadores a deixaram lá. Depois vieram os caçadores de essências em busca de madeiras
perfumadas. Mas a árvore torta, por não ter cheiro algum, foi desprezada e lá ficou. Por ser inútil, sobreviveu. Hoje ela está sozinha na montanha. Os viajantes se assentam sob a sua sombra e descansam.

Um amigo é como aquela árvore. Vive de sua inutilidade. Pode até ser útil eventualmente, mas não é isso que o torna um amigo. Sua inútil e fiel presença silenciosa torna a nossa solidão uma experiência de comunhão. Diante do amigo sabemos que não estamos sós. E alegria maior não pode existir.

(Correio Popular, 1991 ou 1992)

´´´´´´´´´´´´´´´´´´
Rubem Alves nos deixou neste mês, um dia antes do Dia do Amigo. Contudo, sua obra perpetuará e com certeza vai continuar encantando gerações.

FELIZ DIA DA AMIZADE!

quinta-feira, janeiro 30, 2014

A PEDRA



O distraído, nela tropeçou,
o bruto a usou como projétil,
o empreendedor, usando-a construiu,
o campônio, cansado da lida,
dela fez assento.
Para os meninos foi brinquedo,
Drummond a poetizou,
Davi matou Golias...
Por fim;
o artista concebeu a mais bela escultura.
Em todos os casos,
a diferença não era a pedra.
Mas o homem.

(Antônio Pereira)

sábado, dezembro 28, 2013

Falsidade x Verdade


"A falsidade tem uma infinidade de combinações,
mas a verdade só tem um modo de ser."

(Jean-Jacques Rousseau)

sexta-feira, dezembro 27, 2013

Consciência


"Escuta a tua consciência antes de agir,
porque a consciência é Deus presente no homem."

(Victor Hugo)

sexta-feira, novembro 22, 2013

Vida


"A vida começa todos os dias."
(Érico Veríssimo)

É preciso...



"O que é preciso é que os olhos
sejam cristal sem névoa,
e os lábios de ouro puro."

(Cecília Meireles)

quarta-feira, setembro 18, 2013

Dor



"Você não sabe quanto tempo durará a sua dor, mas sabe que enquanto ela doer estará sendo fortificado hoje, para suportá-la amanhã e assim, dia a dia, sua dor vai diminuindo diante da força que ela mesma construiu em você."

G. de Araújo Lima Conheça o blog do autor clicando aqui.

sexta-feira, setembro 13, 2013

Falai de Deus com a clareza


Falai de Deus com a clareza
(Cecília Meireles)


Falai de Deus com a clareza
da verdade e da certeza:
com um poder
de corpo e alma que não possa
ninguém, à passagem vossa,
não O entender.
Falai de Deus brandamente,
que o mundo se pôs dolente,
tão sem leis.

Falai de Deus com doçura,
que é difícil ser criatura:
bem o sabeis.
Falai de Deus de tal modo
que por Ele o mundo todo
tenha amor
à vida e à morte, e, de vê-Lo,
O escolha como modelo
superior.

Com voz, pensamentos e atos
representai tão exatos
os reinos seus

que todos vão livremente
para esse encontro excelente.
Falai de Deus.

quarta-feira, setembro 11, 2013

A casa caiu

“Tem sempre o dia em que a casa cai”, dizia o poeta. Já na Bíblia tá escrito que “nada há encoberto que não venha a ser revelado”, palavras de Jesus. Dizem também que foi Abraham Lincoln quem ensinou que “você pode enganar a todos por algum tempo, alguns o tempo todo, mas jamais enganará todos por todo o tempo”. Na minha juventude ouvia meu pastor aterrorizando a rapaziada: “O diabo ajuda a fazer, mas não ajuda a esconder”. Depois de algum tempo, fiquei com a opção positiva: “Deus repreende os filhos a quem ama”, e nesse caso, quem gosta mesmo de trazer as coisas para a luz é Deus, que tem absoluto interesse em interromper caminhos de destruição e dar novas oportunidades a quem quer que seja.

Infelizmente já vi a casa de muita gente cair. Aprendi que na hora da crise, do desmascaramento, do flagrante ou da denúncia, quando o pecado é revelado e os esqueletos do armário passam a desfilar na calçada, as pessoas se revelam de fato. Algumas poucas bem aventuradas escolhem o caminho da confissão sem justificativas, racionalizações ou transferências de responsabilidades, e simplesmente exclamam “minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa”. E depois se entregam a atitudes como pedir perdão, promover reparações e restituições, se humilhar em silêncio diante das vítimas que agridem em revolta vingativa, buscar conselheiros sábios, se submeter à disciplina dos justos (antes de reagir leia o Salmo 141.5), não apressar o tempo de sua própria restauração, vestir saco e cinzas, e calar todas as reivindicações de eventuais direitos que julga possuir. Tudo isso, evidente e muito provavelmentemente, regado a muitas lágrimas e noites em claro.

Os anos me ensinaram que quando a casa cai, o caminho mais curto e o prazo mais breve da restauração implica seguir o conselho do apóstolo (1Pedro 5.6 – AMensagem): “Contentem-se com o que são (digo, admitam o que são) e não empinem o nariz. A mão de Deus é forte e está sobre vocês. Ele os exaltará no tempo certo. Vivam sem preocupação na presença de Deus: ele toma conta de vocês”.

Ed Rene Kivitz - http://edrenekivitz.com/blog/

terça-feira, setembro 03, 2013

Mais conectado e mais solitário



por NICK BILTON

No último final de semana, eu estava assistindo à TV com alguns amigos, explorando os mais populares no YouTube recentemente, quando um vídeo chamado "I Forgot My Phone" ("esqueci meu celular") chamou a minha atenção.

No momento em que fui apertar play, contudo, meu amigo avisou: "Não veja isso. Vi ontem e é realmente triste."

O vídeo de dois minutos (abaixo), que já foi visualizado mais de 15 milhões de vezes, começa com um casal na cama. A mulher, representada pela comediante e atriz Charlene deGuzman, olha fixamente para o nada silenciosamente enquanto seu namorado checa seu smartphone.

Veja o vídeo clicando aqui

As cenas subsequentes retratam um dia de deGuzman que é desolador: as pessoas a ignoram enquanto fitam o smartphone durante o almoço, um show, enquanto jogam boliche e durante uma festa de aniversário. (Até o menino aniversariante está gravando a festa em seu telefone). O clipe termina com deGuzman de volta à cama com seu namorado no final do dia --e ele ainda está usando seu telefone.

Assistir ao vídeo de deGuzman é desconfortável. É um golpe direto na nossa cultura obcecada com smartphones, cutucando-nos sobre nosso vício naquela pequena tela e sugerindo que talvez a vida possa ser mais bem direcionada quando é vivida --em vez de visualizada.

Apesar de ter algumas cenas engraçadas --um homem fazendo um pedido de casamento na praia enquanto tenta gravar o momento especial em seu telefone--, ele é majoritariamente triste.

"A ideia me ocorreu quando comecei a refletir sobre quão ridículos estamos todos sendo, eu incluída, quando estava em um show e as pessoas a meu redor estavam filmando a apresentação com seus telefones, e não, de fato, assistindo", disse deGuzman em entrevista.

"Deixa-me triste o fato de que há momentos em nossas vidas durante os quais não estamos presentes porque estamos olhando para um telefone", disse deGuzman, também responsável pelo roteiro da peça, dirigida por Miles Crawford. Ela reflete que, deseje-se ou não, experimentar a vida por meio de uma tela de quatro polegadas pode ser a nova norma.

Ou não. O vídeo de deGuzman pode ter aterrissado em um daqueles momentos culturais em que as pessoas começam a questionar se algo já foi longe demais e começam a fazer algo em relação a isso.

Na semana passada, o festival de música polonês Unsound proibiu os espectadores de gravar os evento, dizendo que não desejava "documentação instantânea" e distrações que pudessem prejudicar as apresentações.

Em abril, durante um show em Nova York, Karen O, vocalista líder do grupo Yeah Yeah Yeahs, disse à plateia para guardar seus smartphones (usando um palavrão para enfatizar a mensagem).

Um bom número de restaurantes nova-iorquinos, incluindo Momofuku Ko e Chef′s Table, proibiu clientes de fotografar seus pratos. (Nota aos ′foodies′: sua quinoa não precisa ser postada artisticamente e com um visual retrô no Instagram.) E, é claro, muitas mães e pais que lutaram para manter a TV longe da cozinha pode ver os smartphones como a nova ameaça à civilidade à hora do jantar.

No final dos anos 50, os televisores começaram a deixar a sala de estar rumo à cozinha, frequentemente levada até a sala de jantar para se unir à família para a ceia. E, então, a TV na mesa de jantar repentinamente se tornou falta de modos. A TV voltou à sala de estar.

"Nunca foi algo que realmente deu certo nas casas americanas", disse Lyn Spigel, professora na Northwestern University, em Illinois, e autora do livro "Make Room for TV" ("Dê Espaço à TV", sem edição no Brasil).

"Em determinado momento, uma empresa até tentou inventar uma geringonça chamada forno-TV, que unia os dois aparelhos", disse.

Estariam, portanto, os smartphones tendo seu momento "TV na cozinha"?

"Toda experiência está sendo mediada e concebida sobre como pode ser capturada e aumentada por nossos dispositivos", disse Mathias Crawford, um pesquisador sobre comunicações e interações entre humanos e computadores na Universidade Stanford. "Nada se tornou tão mais evidente que nossas refeições, cujos momentos que antecedem, o antes e o depois são esculpidos por determinados aplicativos."

Reservas são feitas no OpenTable; a chegada ao restaurante é registrada no Foursquare; a comida é fotografada para o compartilhamento no Instagram; uma piada ouvida durante o jantar é tuitada; a análise sobre o restaurante é subida ao Yelp; então, finalmente, a volta para casa é coordenada usando o Uber.

"Se você pondera sobre quando as pessoas vão deixar o telefone de lado, isso significaria rejeitar todo o conceito do Vale do Silício de como você deveria estar jantando", disse Crawford. Mas, disse, é possível. "Sim, a sociedade está mudando, mas o iPhone tem apenas seis anos de idade, e essas mudanças ainda não estão determinadas."

Dada a impressionante resposta ao vídeo de deGuzman, deduz-se que as pessoas estejam pelo menos pensando sobre tais mudanças.

"Somente neste ano que tive esses pensamentos sobre viver o momento sem meu telefone", disse deGuzman. "Ainda carrego o celular comigo, mas tento mantê-lo na bolsa. Agora, me vejo apenas abraçando um momento, sem ter de postar uma foto sobre isso."

Fonte: Folha Online - 02/09/2013

quinta-feira, agosto 29, 2013

O fim do mundo




Por Cecília Meireles


A primeira vez que ouvi falar no fim do mundo, o mundo para mim não tinha nenhum sentido, ainda; de modo que não me interessava nem o seu começo nem o seu fim. Lembro-me, porém, vagamente, de umas mulheres nervosas que choravam, meio desgrenhadas, e aludiam a um cometa que andava pelo céu, responsável pelo acontecimento que elas tanto temiam.

Nada disso se entendia comigo: o mundo era delas, o cometa era para elas: nós, crianças, existíamos apenas para brincar com as flores da goiabeira e as cores do tapete.

Mas, uma noite, levantaram-me da cama, enrolada num lençol, e, estremunhada, levaram-me à janela para me apresentarem à força ao temível cometa. Aquilo que até então não me interessava nada, que nem vencia a preguiça dos meus olhos pareceu-me, de repente, maravilhoso. Era um pavão branco, pousado no ar, por cima dos telhados? Era uma noiva, que caminhava pela noite, sozinha, ao encontro da sua festa? Gostei muito do cometa. Devia sempre haver um cometa no céu, como há lua, sol, estrelas. Por que as pessoas andavam tão apavoradas? A mim não me causava medo nenhum.

Ora, o cometa desapareceu, aqueles que choravam enxugaram os olhos, o mundo não se acabou, talvez eu tenha ficado um pouco triste - mas que importância tem a tristeza das crianças?

Passou-se muito tempo. Aprendi muitas coisas, entre as quais o suposto sentido do mundo. Não duvido de que o mundo tenha sentido. Deve ter mesmo muitos, inúmeros, pois em redor de mim as pessoas mais ilustres e sabedoras fazem cada coisa que bem se vê haver um sentido do mundo peculiar a cada um.

Dizem que o mundo termina em fevereiro próximo. Ninguém fala em cometa, e é pena, porque eu gostaria de tornar a ver um cometa, para verificar se a lembrança que conservo dessa imagem do céu é verdadeira ou inventada pelo sono dos meus olhos naquela noite já muito antiga.

O mundo vai acabar, e certamente saberemos qual era o seu verdadeiro sentido. Se valeu a pena que uns trabalhassem tanto e outros tão pouco. Por que fomos tão sinceros ou tão hipócritas, tão falsos e tão leais. Por que pensamos tanto em nós mesmos ou só nos outros. Por que fizemos voto de pobreza ou assaltamos os cofres públicos - além dos particulares. Por que mentimos tanto, com palavras tão judiciosas. Tudo isso saberemos e muito mais do que cabe enumerar numa crônica.

Se o fim do mundo for mesmo em fevereiro, convém pensarmos desde já se utilizamos este dom de viver da maneira mais digna.

Em muitos pontos da terra há pessoas, neste momento, pedindo a Deus - dono de todos os mundos - que trate com benignidade as criaturas que se preparam para encerrar a sua carreira mortal. Há mesmo alguns místicos - segundo leio - que, na Índia, lançam flores ao fogo, num rito de adoração.

Enquanto isso, os planetas assumem os lugares que lhes competem, na ordem do universo, neste universo de enigmas a que estamos ligados e no qual por vezes nos arrogamos posições que não temos - insignificantes que somos, na tremenda grandiosidade total.

Ainda há uns dias a reflexão e o arrependimento: por que não os utilizaremos? Se o fim do mundo não for em fevereiro, todos teremos fim, em qualquer mês...


Texto extraído do livro "Quatro Vozes", Distribuidora Record de Serviços de Imprensa - Rio de Janeiro, 1998, pág. 73.

quarta-feira, agosto 28, 2013

Meu Ideal Seria Escrever...




Rubem Braga
Julho, 1957


Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse -- "ai meu Deus, que história mais engraçada!". E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria -- "mas essa história é mesmo muito engraçada!".

Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.

Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse -- e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aqueles pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse -- "por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!" . E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.

E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago -- mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: "Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina".

E quando todos me perguntassem -- "mas de onde é que você tirou essa história?" -- eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: "Ontem ouvi um sujeito contar uma história...".

E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.



terça-feira, agosto 06, 2013

Santilóides!



Como há "santos" na igreja! Sim, "santos" entre aspas mesmo. Você deve conhecer alguns e eu também os conheço. São inúmeros, tem crescido e produzem uma mistura de nojo, asco e medo.

Eu não gosto de "santos", e espero que você não goste e muito menos seja um.

Vou tentar explicar.

Os "santos" a quem me refiro são os patrulhadores chatos dos bons costumes não necessariamente arraigados na Palavra. São aqueles que buscam doutrinas espúrias e absurdas a serem cumpridas com o único fim de se sentirem mais espirituais que outros e mais merecedores da benevolência divida. São "santos" que buscam a auto-promoção cristã-evangélica e o louvor de seus guetos deturbados e alienados.

São doentes de "santidade".

Possuem uma espiritualidade repulsiva, cheia de atitudes neojudaizantes, onde shofar, arca, bandeira de Israel, correntes,  promessas e outras mandingas evangélicas são parte integrante da busca de tal "santidade" baseada na profecia do irmão fulano, na revelação da geralmente mal casada irmã sicrana e dos desvaneios exegéticos do pastor beltrano.

Quando são mais "tradicionais" geralmente se tornam defensores da "sã doutrina" e dos "bons costumes". Claro que tais "doutrinas e costumes" são determinados pela própria visão do movimento histórico evangélico a ser defendido. Estes, diante do novo, posicionam-se contrários, pois o novo geralmente representa perda de poder (and money, of course). Eles não assumem, mas tem uma quedinha e até compreendem o lado de uns tais fariseus contra um tal Jesus de Nazaré (e de Nazaré vem coisa boa?).

Esse tipo de gente é tão "santa" que não se mistura aos desvalidos, pobres, miseráveis e demais pecadores, pois estes são apenas "vítimas da maldição ainda não quebrada", e por isso instrumentos do diabo a serem evitados. O contato com eles diminuiria a posição no ranking dos mais "santos" na denominação a qual pertencem. Assim, ao sair de um culto muito "abençoado" são capazes de pisar sem misericórdia, de julgar sem escrúpulos e a orar sem a graça.

Aliás, para estes a graça não é algo muito pregado e nem mesmo necessário, pois a graça só é necessária prá quem nada é ou tem, e eles tem e são muito. Eles tem tantas "bênçãos" e são tão "santos" que Jesus é apenas um ajudador do tipo que deu o primeiro passo numa caminhada que caminham sozinhos e confiados em si mesmos.

Estes, enfim, são doentes.

Não são santos, são santilóides.

Marquito - (@marquito_pira)  - é pastor da Comunidade Cristã Ajuntamento - Piracicaba/SP - e você pode ler mais textos dele aqui: www.ajuntamento.com.br

sábado, agosto 03, 2013

Desejos


"Todos conquistam o que desejam, mas nem sempre se satisfazem com isso."
(As crônicas de Nárnia)

sexta-feira, agosto 02, 2013

Lamento


Lamento e oro por aqueles que NÃO sonham e por aqueles que SÓ sonham!
Aprofundar a existência é ir alem dos sonhos.
É imprimir significados a tudo que se é e que se faz.
Encorajo os que NÃO sonham a sonhar e, em sonhando, buscar materializa-los a partir de agora.
Não desperdice nenhum minuto!

Carlos Bregantim

quinta-feira, julho 25, 2013

Escrever é esquecer!



Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.


(Fernando Pessoa)


25 de Julho - Dia do Escritor

O nosso muito obrigado ao Deus criador dos humanos e das artes, de todos os autores que nos inspiram!

segunda-feira, julho 22, 2013

A língua

Sou feliz pelos amigos que tenho. Um deles sofre pelo meu descuido com o vernáculo. Por alguns anos ele sistematicamente me enviava missivas eruditas com precisas informações sobre as regras da gramática que eu não respeitava, e sobre a grafia correta dos vocábulos, que eu ignorava. Fi-lo sofrer pelo uso errado que fiz de uma palavra. Acontece que eu, acostumado a conversar com a gente das Minas Gerais, falei em "varreção" - do verbo "varrer". De fato, trata-se de um equívoco que, num vestibular, poderia me valer uma reprovação. Pois o meu amigo, paladino da língua portuguesa, se deu ao trabalho de fazer um xerox da página 827 do dicionário, aquela que tem, no topo, a fotografia de uma "varroa" (sic!) (você não sabe o que é uma "varroa"?) para corrigir-me do meu erro.. E confesso: ele está certo. O certo é "varrição" e não "varreção". Mas estou com medo de que os mineiros da roça façam troça de mim porque nunca os vi falar de "varrição". E se eles rirem de mim não vai me adiantar mostrar-lhes o xerox da página do dicionário com a "varroa" no topo. Porque para eles não é o dicionário que faz a língua. É o povo. E o povo, lá nas montanhas de Minas Gerais, fala "varreção" quando não "barreção". O que me deixa triste sobre esse amigo oculto é que nunca tenha dito nada sobre o que eu escrevo, se é bonito ou se é feio.
Toma a minha sopa, não diz nada sobre ela, mas reclama sempre que o prato está rachado.
Texto: Rubem Alves Livro em Ostra feliz não faz pérola

quinta-feira, julho 11, 2013

A simplicidade profunda e esmagadora de Jesus


A SIMPLICIDADE PROFUNDA E ESMAGADORA DE JESUS


A cada dia mais me impressiona a simplicidade de Jesus em relação a tudo.



Ele negou-se a tratar de quase tudo o que a filosofia e a teologia tratam com avidez.



A origem do mal Ele simplesmente desprezou em qualquer que seja a explicação “metafísica”. Simplesmente disse que o mal existe. E o tratou com realidade óbvia.



O problema da dor foi por Ele tratado com as mãos, não com palavras e discursos.



As desigualdades sociais foram todas reconhecidas, mas não se o vê armando qualquer ação popular contra elas.



Seus protestos eram todos ligados à perversão do coração, mas nunca se tornavam projeto político, ou passeatas, ou bandeiras.



A “queda” não é objeto de nenhuma especulação da parte Dele. Bastava a todos ver as conseqüências dela.



Sobre a morte sua resposta foi a paz e a vida eterna.



Jamais tentou justificar o Pai de nada. Apenas disse que Ele é bom e justo.



Mandou lutar contra os poderes da hipocrisia e do desamor, mas não deu nenhuma garantia de que se os venceria na Terra.



Sua grande resposta à catástrofe humana foi a promessa de Sua vinda, e nada mais.



Nunca pediu que se estabelecesse o Reino de Deus fora do homem, mas sempre dentro dele; pois, fora, o reino, por hora, era do príncipe deste mundo.



Não buscou ninguém com poder a fim de ajudar qualquer coisa em Sua missão.



Adulto, foi ao templo apenas para pregar aquilo que acabaria com o significado do templo como lugar de culto.



Fez da vida o sagrado, e de todo homem um altar no qual Deus é servido em amor.



Chamou o dinheiro de “deus”, mas se serviu dele como simples meio.



Pagou impostos; mas nunca cobrou nada de ninguém, exceto amor ao próximo.



A morte para Ele não era mesma coisa que é para nós. Morrer não era mal. Viver mal é que era mau.



Em Seus ensinos Ele sempre parte do que existe como realidade e nega-se fazer qualquer viagem para aquém do dia de hoje.



Para Ele o mundo se explicava pelas ações dos homens, e prescindia de analises; pois, tudo era mais que óbvio.



Não teologizou sobre nada. E todas as Suas respostas aos escribas e teólogos eram feitas de questões sobre a vida e seu significado agora; e sempre relacionado ao que se tem que ser e fazer.



Quando indagado de onde vinha o “joio”, Ele simplesmente diz: “Um inimigo fez isso...” — referindo-se ao diabo.



Prega a Palavra, e não tenta controla-la.



Vê pessoas crerem, mas não tem nenhuma fixação em fazê-las suas seguidoras físicas e geográficas.



Não tem pressa, embora saiba que o mundo precisa conhecer Sua Palavra.



Cita as Escrituras sem nenhuma preocupação com autores, contextos ou momentos históricos.



Arranca certezas da Palavra baseadas em um verbo “ser” — aludindo ao fato de Deus ser Deus de vivos e não de mortos, pois, “para ele todos vivem”.



Ensina que a morte é o fundamento da vida, e tira dela o poder de matar, dando a ela a força das sementes que ao morrerem dão muito fruto.



E assim Ele vai...



E assim Nele é!





Nele, para Quem a filosofia é a vida em amor,





Caio

07/03/03

Lago Norte

Brasília

quarta-feira, julho 03, 2013

Por que as pessoas gritam? - Mahatma Gandhi

Um dia, um pensador indiano fez a seguinte pergunta a seus discípulos:
- Por que as pessoas gritam quando estão aborrecidas?
- Gritamos porque perdemos a calma, disse um deles.
- Mas, por que gritar quando a outra pessoa está ao seu lado? - Questionou novamente o pensador.
- Bem, gritamos porque desejamos que a outra pessoa nos ouça, retrucou outro discípulo.

E o mestre volta a perguntar:
- Então não é possível falar-lhe em voz baixa?

Várias outras respostas surgiram, mas nenhuma convenceu o pensador. Então ele esclareceu:
- Vocês sabem porque se grita com uma pessoa quando se está aborrecida? O fato é que, quando duas pessoas estão aborrecidas, seus corações se afastam muito.
Para cobrir esta distância precisam gritar para poderem escutar-se mutuamente.
Quanto mais aborrecidas estiverem, mais forte terão que gritar para ouvir um ao outro, através da grande distância.
Por outro lado, o que sucede quando duas pessoas estão enamoradas?
Elas não gritam.
Falam suavemente.
E por quê?
Porque seus corações estão muito perto.
A distância entre elas é pequena.
Às vezes estão tão próximos seus corações, que nem falam, somente sussurram.
E quando o amor é mais intenso, não necessitam sequer sussurrar, apenas se olham, e basta.
Seus corações se entendem.
É isso que acontece quando duas pessoas que se amam estão próximas.

Por fim, o pensador conclui, dizendo:

"Quando vocês discutirem, não deixem que seus corações se afastem, não digam palavras que os distanciem mais, pois chegará um dia em que a distância será tanta que não mais encontrarão o caminho de volta"

terça-feira, junho 11, 2013

O VALIOSO TEMPO DOS MADUROS

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.


Tenho muito mais passado do que futuro.

Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.

As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.

Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.

Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral.

'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...

Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta comtriunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,

O essencial faz a vida valer a pena.

E para mim, basta o essencial!

Ricardo Gondim