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terça-feira, outubro 29, 2013

Tatuagem: pecado ou não?


Tabu, religiosidade, moda, legalismo, pressão social, enfim, seja lá qual for o contexto, discutir sobre esse assunto (tatuagem) ainda é muito polêmico, seja no meio cristão ou mesmo secular. Tenho uma tatuagem, acho algumas tatuagens bem bonitas, porem sempre tive cautela e receio em relação à prática. Meu principal receio: Arrepender. No meio cristão vários são os argumentos utilizados para atacar a prática da tatuagem e os principais e mais polêmicas são retirados de textos bíblicos.

E que argumentos seriam esses? Seriam eles sólidos?

Acho que a simples polêmica em torno desse tema já nos desperta para ler o artigo, além disso, antes de formarmos opinião sobre algo específico é sempre bom avaliarmos a questão pelos mais diversos ângulos possíveis. Então, que seja proveitosa e esclarecedora sua leitura.

FATOS SOBRE TATUAGEM QUE NÃO PODEM SER DESPREZADOS

“Sabe o que é? Estou com dúvida sobre se posso ou não fazer uma tatuagem. O que o senhor, pastor, me aconselha?” 

Claro que não, seu idiota! Se você ainda tem dúvidas, está mais do que claro que NÃO DEVE fazer. Mas como vira e mexe ainda sou obrigado a responder este tipo de pergunta, gostaria de fazer uma reflexão objetiva e definitiva sobre tatuagens.

1) Dói. Então se sua tolerância à dor é baixa, não se arrisque.
2) Não sai. Por mais moderno que sejam os lasers prometidos pelo seu dermatologista, sempre ficam pequenas cicatrizes (algumas nem tão pequenas assim).
3) Não conseguirá trabalhar em qualquer lugar. Claro que isto está mudando, principalmente nos grandes centros. Mas ainda não é a realidade na maior parte do Brasil.
4) Três de cada cinco pessoas que fazem tatuagem se arrependem nos dois primeiros anos. Portanto pense bem antes de tatuar o nome da sua namorada ou a cara da sua mãe. Do jeito que as pessoas não andam levando relacionamentos a sério, nem depois de casado tá dando pra tatuar o nome “dela”. E a cara da sua mãe ficará horrível em forma de tatuagem. Fica parecendo aquelas fotos pintadas que se colocam em túmulos.

O QUE A BÍBLIA DIZ SOBRE TATUAGENS - Na verdade a Bíblia não diz nada. E ao mesmo tempo diz tudo. Tanto os legalistas que são radicalmente contra tatuagem, quanto os liberais extremistas, tentam forçar a amizade utilizando textos ao pé da letra, sem levar em consideração o contexto. Pois analisemos algumas passagens bíblicas:

PASSAGENS BÍBLICAS UTILIZADAS EM REFERÊNCIA A TATUAGENS 

“Não fareis lacerações na vossa carne pelos mortos; nem no vosso corpo imprimireis qualquer marca. Eu sou o Senhor.” (Levítico 19:28) 

Esta passagem é utilizada por boa parte dos radicais que adoram estuprar o contexto da palavra de Deus. Conforme está escrito, tanto o fazer lacerações quanto o imprimir marcas, referem-se especificamente ao culto aos mortos. Portanto, como nem toda tatuagem refere-se a adoração de defuntos, não dá para generalizar. Outro ponto importante é que no mesmo capítulo, especificamente no versículo 27, há outra afirmação interessante: 

“Não cortareis o cabelo, arredondando os cantos da vossa cabeça, nem desfigurareis os cantos da vossa barba.” (Levítico 19:27). 

Percebe como o mesmo texto que ordena que não sejam impressas “marcas” sobre a pele também ordena que está vetado os cortes de cabelo do tipo “cuia” e também o barbear-se adequadamente? Por que um versículo deve ser levado ao pé da letra e o imediatamente anterior a ele não? Paulo explica isso na carta aos Gálatas, discorrendo acerca daqueles que queriam guardar a circuncisão mesmo após conhecerem a Cristo:

“E de novo testifico a todo homem que se deixa circuncidar, que está obrigado a guardar toda a lei.” (Gálatas 5:3)

Então ou pega o pacote completo da Lei ou aceita de uma vez que somos chamados pela graça. Esta graça não implica em ausência de responsabilidades, mas em consciência transformada. Quem faz, deve saber o porquê e estar plenamente ciente de que prestará contas por suas ações.

O segundo argumento bíblico utilizado é de que nosso corpo é o TEMPLO DO ESPÍRITO SANTO e, portanto, não devemos profaná-lo. Juro que gostaria de saber de onde provém este conceito. Mas vamos lá! Primeiramente é importante observar bem o texto em que a expressão “templo do Espírito” aparece:

“Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?” (1 Coríntios 6:19)

Está explícito no texto como Paulo refere-se ao ESPÍRITO QUE HABITA EM “VÓS”. Na realidade nosso corpo não pode ser chamado individualmente de templo do Espírito, pois segundo explica mais detalhadamente o apóstolo Pedro:

“Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo.” (1 Pedro 2:4)

Somo pedras. Parte da edificação que é chamada de TEMPLO DO ESPÍRITO SANTO. Individualmente não passamos de meras pedras. Apenas coletivamente somos EDIFICAÇÃO. O mais interessante é como esta edificação é composta por pedras de todos os formatos e tamanhos. É fundamental que cada um encontre seu lugar, onde há ajuste perfeito entre as partes próximas, de modo a compor o todo. A beleza da igreja de Cristo está na diversidade e não na uniformidade. Assim, não serão cores, impressas ou de nascença, que farão com que esta edificação espiritual seja profanada. Além de que, há milhares de outras pequenas coisas moralmente aceitas que podem denegrir igualmente a “beleza” do corpo que é uma pedra viva. Exemplos? Lá vai alguns:

Comer demais, comer coisas que não são saudáveis, desnutrir-se por privar-se de coisas que não são saudáveis, maquiagem definitiva, silicone nos seios, lipoaspiração, vida sedentária, beber refrigerante demais, não beber água suficiente, tomar sol em demasia sem usar protetor solar… Dá pra citar milhares de pequenas coisas que detonam com nosso corpo. Muito mais do que uma tatuagem.

A proposição bíblica fundamental para todo aquele que deseja seguir a Cristo é EQUILÍBRIO. Deus nos criou para comermos de todas as árvores do jardim. Basta termos moderação e compreendermos claramente quais os LIMITES estabelecidos. O problema é que geralmente as pessoas só conhecem seus limites depois de ultrapassá-los. Se você for tolo e fizer isto com tatuagens, será tarde demais. Portanto, MODERAÇÃO É BEM VINDA!

E pra encerrar, o terceiro argumento mais utilizado pelos que procuram justificativas bíblicas para condenar tatuagens:

“Ai do mundo, por causa dos escândalos; porque é mister que venham escândalos, mas ai daquele homem por quem o escândalo vem!” (Mateus 18:7)

Este talvez seja o argumento mais fraco, porém tem seus fundamentos. Pensem comigo: o que vem a ser literalmente um escândalo? Penso que seja aquilo que destrói pessoas, afastando-as da fé em Cristo e da sã doutrina. Assim sendo, uma tatuagem realmente até pode ser chamada de escândalo, de acordo com o contexto de cada um. Uma família pode criar aversão à fé do filho simplesmente porque discorda das decisões que este toma ao tatuar-se por pressão social da igreja que faz parte. Pode parecer idiotice, mas já vi dúzias de pessoas tatuarem até mesmo a logomarca da igreja.

No entanto, este argumento não qualifica tatuagens como proibidas, pois nem todas provocam necessariamente escândalos. Cabe a cada um discernir o quanto é conveniente e lícito tatuar-se. Cada um precisa assumir a responsabilidade por suas ações, levando em conta não apenas estes poucos textos bíblicos citados, mas também toda a mensagem do evangelho. Sabendo que cada um prestará contas pessoalmente ao próprio Deus.

Não seja burro. Na dúvida, NÃO FAÇA!

E na certeza, procure um profissional competente.

“e tudo o que não provém da fé é pecado.” (Romanos 14:23b)

Ariovaldo Jr. 

quinta-feira, agosto 29, 2013

O fim do mundo




Por Cecília Meireles


A primeira vez que ouvi falar no fim do mundo, o mundo para mim não tinha nenhum sentido, ainda; de modo que não me interessava nem o seu começo nem o seu fim. Lembro-me, porém, vagamente, de umas mulheres nervosas que choravam, meio desgrenhadas, e aludiam a um cometa que andava pelo céu, responsável pelo acontecimento que elas tanto temiam.

Nada disso se entendia comigo: o mundo era delas, o cometa era para elas: nós, crianças, existíamos apenas para brincar com as flores da goiabeira e as cores do tapete.

Mas, uma noite, levantaram-me da cama, enrolada num lençol, e, estremunhada, levaram-me à janela para me apresentarem à força ao temível cometa. Aquilo que até então não me interessava nada, que nem vencia a preguiça dos meus olhos pareceu-me, de repente, maravilhoso. Era um pavão branco, pousado no ar, por cima dos telhados? Era uma noiva, que caminhava pela noite, sozinha, ao encontro da sua festa? Gostei muito do cometa. Devia sempre haver um cometa no céu, como há lua, sol, estrelas. Por que as pessoas andavam tão apavoradas? A mim não me causava medo nenhum.

Ora, o cometa desapareceu, aqueles que choravam enxugaram os olhos, o mundo não se acabou, talvez eu tenha ficado um pouco triste - mas que importância tem a tristeza das crianças?

Passou-se muito tempo. Aprendi muitas coisas, entre as quais o suposto sentido do mundo. Não duvido de que o mundo tenha sentido. Deve ter mesmo muitos, inúmeros, pois em redor de mim as pessoas mais ilustres e sabedoras fazem cada coisa que bem se vê haver um sentido do mundo peculiar a cada um.

Dizem que o mundo termina em fevereiro próximo. Ninguém fala em cometa, e é pena, porque eu gostaria de tornar a ver um cometa, para verificar se a lembrança que conservo dessa imagem do céu é verdadeira ou inventada pelo sono dos meus olhos naquela noite já muito antiga.

O mundo vai acabar, e certamente saberemos qual era o seu verdadeiro sentido. Se valeu a pena que uns trabalhassem tanto e outros tão pouco. Por que fomos tão sinceros ou tão hipócritas, tão falsos e tão leais. Por que pensamos tanto em nós mesmos ou só nos outros. Por que fizemos voto de pobreza ou assaltamos os cofres públicos - além dos particulares. Por que mentimos tanto, com palavras tão judiciosas. Tudo isso saberemos e muito mais do que cabe enumerar numa crônica.

Se o fim do mundo for mesmo em fevereiro, convém pensarmos desde já se utilizamos este dom de viver da maneira mais digna.

Em muitos pontos da terra há pessoas, neste momento, pedindo a Deus - dono de todos os mundos - que trate com benignidade as criaturas que se preparam para encerrar a sua carreira mortal. Há mesmo alguns místicos - segundo leio - que, na Índia, lançam flores ao fogo, num rito de adoração.

Enquanto isso, os planetas assumem os lugares que lhes competem, na ordem do universo, neste universo de enigmas a que estamos ligados e no qual por vezes nos arrogamos posições que não temos - insignificantes que somos, na tremenda grandiosidade total.

Ainda há uns dias a reflexão e o arrependimento: por que não os utilizaremos? Se o fim do mundo não for em fevereiro, todos teremos fim, em qualquer mês...


Texto extraído do livro "Quatro Vozes", Distribuidora Record de Serviços de Imprensa - Rio de Janeiro, 1998, pág. 73.

segunda-feira, junho 24, 2013

A mídia, a cura gay e eu em defesa do Marco Feliciano, quem diria...

Eu tenho uma porção de motivos teológicos para discordar de Marco Feliciano como pastor, mais alguns para discordar de sua postura como deputado, mas confesso que não tenho nenhum argumento contra ele no que a mídia, erroneamente, chama de "cura gay". Vamos aos fatos.

A primeira coisa importante para se esclarecer sobre o assunto é que a mídia brasileira tem manipulado descaradamente a opinião pública em favor de alguns ideais, atualmente, a favor do que se chama de "agenda gay". Assim, ao abordar um projeto que prevê alteração nos artigos do Conselho Federal de Psicologia e apelida-lo de "cura gay" a informação é publicada de forma distorcida, limitando o esclarecimento e reforçando o preconceito, o que chega a ser irônico.

A segunda coisa importante é que não se trata de um projeto do deputado Marco Feliciano, embora ele, como presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, o tenha colocado em pauta.

E o mais importante de tudo: O projeto não prevê a cura para gays. Vejamos:

O Projeto de Decreto Legislativo 234/11, de autoria do deputado João Campos (PSDB), não pretende criar nenhuma rede de tratamento psiquiátrico ou psicológico para "cura" dos homossexuais. Isso sequer foi cogitado.

O que o Projeto pretende é anular o Parágrafo Único do Artigo 3º e todo o Artigo 4º da Resolução 1/99 do Conselho Federal de Psicologia. Leia o texto do projeto:

Art. 1º Este Decreto Legislativo susta o parágrafo único do Art. 3º e o Art. 4º, da Resolução do Conselho Federal de Psicologia nº 1/99 de 23 de Março de 1999.

Art. 2º Fica sustada a aplicação do Parágrafo único do Art. 3º e o Art. 4º, da Resolução do Conselho Federal de Psicologia nº 1/99 de 23 de Março de 1999, que estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da orientação sexual.

Art. 3º Este decreto legislativo entra em vigor na data de sua publicação.


Compreendendo quais são os artigos da Resolução que podem ser suspensos pelo PL 234/11:

Parágrafo único – Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades.

Art. 4° – Os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica.


Analisando esses parágrafos da Resolução, não está claro que eles são abusivos? Eles tratam de uma proibição aos profissionais da psicologia de exercerem auxílio a pessoa com tendência homossexual que queira, de livre vontade, orientações. Ao proibir os profissionais de auxiliarem, não está a Resolução, condenando aqueles que, por quaisquer motivos que sejam, queiram orientar-se em relação a sua sexualidade ou até mesmo repensarem essa sexualidade a viverem sozinhos esse drama? Então a Resolução parte do princípio que todos os homossexuais devem simplesmente serem felizes com sua condição e ponto final? Que não há exceções?

O Projeto não prevê tratamento para gays. Mas se aprovado, aquele que livremente buscar auxílio e orientação encontrará na Psicologia um apoio e, a partir de então, terá melhores condições para tomar decisões.

O que vejo com a proibição na Resolução do Conselho Federal de Psicologia é uma decapitação da liberdade humana, justamente do que acusam a comissão e o deputado Marco Feliciano ao chamarem o Projeto de "Cura Gay".


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pelo Reino, com inteligência.

#2 Andréa Cerqueira
(@acspira)



quarta-feira, junho 19, 2013

Proteste!

Foto vista em Melhor que Bacon


Sim, vou falar sobre as ondas de protesto que estão invadindo muitas cidades do Brasil e mobilizando multidões compostas, em sua maioria, por jovens. Vou me posicionar como pastor e, como você pode imaginar pelo próprio título do texto, defender os protestos e incentivar você a participar deles. Gostaria, para isso, de fazer algumas considerações.

1 - A Igreja Protestante tem no seu DNA o protesto contra a injustiça, o erro, a opressão e a corrupção. Sei que isso foi muitas vezes negado e rejeitado (pela própria igreja) como um ser que tenta lutar contra si mesmo e suas características, o que pode ser possível por um tempo, mas não é possível para sempre (esse gigante também pode acordar). Se você é protestante então é filho de uma tradição de homens que se levantaram contra o status quo, muitos deles pagando com a vida por isto.

2 - Não nego que há excessos de todos os lados, mas o fato de haver excessos não pode tirar do movimento a sua legitimidade. Há excessos cometidos em praticamente todas as igrejas e nem por isso somos incentivados a não fazer parte de uma comunidade. O que precisamos é de uma postura cristã mesmo em meio ao erro. Assim, o protesto não é o erro, o que me permite como cristão participar dele.

3 - O Mestre da Igreja, Jesus Cristo, quando necessário, demonstrou a sua ira e indignação no caso conhecido dos vendilhões do templo. Muitos argumentam que a sua ira não era ligada a um movimento político, mas religioso, o que não é verdade, pois na época de Jesus a religião e a política estavam intimamente ligados. Ao protestar contra um sistema religioso corrupto e corruptor ele também estava protestando contra uma política que fazia a mesma coisa.

4 - A Bíblia não demoniza aqueles que protestam, pelo contrário! Há muitas recomendações bíblicas para que levantemos a voz contra a opressão e em favor dos oprimidos. A agenda do Reino de Deus contempla, ou deveria contemplar, a luta contra aqueles que oprimem. A igreja deveria ser a voz dos que não tem como falar e os braços de quem não tem como lutar.

5 - Essa é uma chance da igreja, enfim, deixar de ser um espaço alienante, de fuga da realidade da vida, para um organismo vivo que sente a dor do próximo, solidariza com ele e levanta a voz como um ato de amor. A defesa da não participação com o argumento de que não somos cidadãos do mundo, mas dos céus, é fruto de uma eclesiologia completamente antibíblica.

6 - Quando nossos filhos olharem para o passado e nos perguntarem, poderemos afirmar que fizemos alguma coisa além de ver tudo pela TV. Quando perguntarem onde estava a igreja poderemos mostrar as nossas fotos, contar os fatos e dizer que a igreja, enfim, estava lá!


Marquito - @marquito_pira
Pastor da Comunidade Cristã Ajuntamento e você pode ler mais textos dele no site: www.ajuntamento.com.br

quarta-feira, maio 29, 2013

Inteligência (e bom testemunho) na madrugada

Rubinho Pirola
Nada forçado, apesar do entrevistado ser um artista, músico, e... crente.
Assim vi a entrevista do ex-Paquito Alexandre Canhoni, ou Xand, no programa Agora é Tarde do comediante Danilo Gentili na Band.
O que podia ser mais do mesmo, aquela do ex-artista fracassado que se converte e nem bem esquentou já está desfiando uma pregação repleta de chavões e frases-feitas. 
Não que seja tarefa fácil tapar a boca de um novo convertido, cheio de gás, de paixão por Cristo... mas infelizmente não é disso que estou falando. Geralmente, alguém assim, desfaz qualquer má impressão por um testemunho convincente. A paixão não é algo bem comportado e com modos.
Infelizmente, temos visto mais do primeiro exemplo.
O que temos assistido nas nossas TVs é uma teologia de buteco, pregações rasas e geralmente imbecis  e pregadores sem modos (entendamos: sem educação, que não ouve, não respeita o outro), presunçosos e de uma vaidade que beira ao ridículo.
Fui premiado ontem ficando até tarde.
O assunto principal foi a solidariedade (do ax-artista que largou tudo, vive com a esposa no Níger, segundo país mais pobre do planeta, com 15 filhos adotivos e mais de um milhar de abrigados no seu projeto humanitário)...
A fonte desse trabalho, o que o motivou a fazer o que faz e a sua conversão dos valores e princípios, vieram puxados pelo microfone do entrevistador, abertamente – e sinceramente – interessado nas obras que sinalizavam algo maior. A raiz estava na fé do entrevistado, fruto do seu encontro com Jesus.
Nada mal para quem já começa a acreditar na estúpida mania de perseguição – quase esquizofrênica dos crentes de hoje. Só têm sido atacados e perseguidos os que teimam em parecerem-se, em apresentarem-se idiotas (não estou sendo juiz, só digo que aparentam ser, rsrsrsrs).
Com esse tipo – idiota – de pregação, de testemunho, ou o que queiramos chamar no alto do nosso exercício do “evangeliquês” – temos mais é que levar pau. E sermos perseguidos.
E que saudade do tempo em que éramos perseguidos pelo nome de Cristo...
Quem desejar conhecer o trabalho, deve acessar: http://guerreirosdedeus.com.br/

domingo, abril 14, 2013

A cultura do estupro gritando – e ninguém ouve




Nádia Lapa*, na Carta Capital
Como a essa altura vocês já devem saber, Gerald Thomas tentou colocar as mãos por dentro do vestido da Nicole Bahls durante um evento no Rio. Era noite de lançamento de um livro dele e a Livraria da Travessa estava lotada. Repórteres, cinegrafistas, funcionários da loja, clientes.
Pelas notícias, ninguém fez nada. Nas imagens dá para ver que o colega de trabalho de Nicole no Pânico continuou a entrevista como se nada tivesse acontecendo. Enquanto isso, Thomas enfiava a mão entre as pernas de Nicole e ela tentava se desvencilhar.
Sempre rolam os xingamentos à mulher, claro. São os usuais: que ela estava pedindo, que ela estava gostando, que o trabalho dela é esse mesmo, que a roupa era justa. Vocês estão cansados de saber quais as justificativas injustificáveis para o assédio e a agressão sexual.
Mas duas coisas me chamam a atenção nesse caso. A primeira é ninguém ter feito nada. Acharem normal. Acharem aceitável. Se a agressão tivesse sido com uma atriz considerada recatada, as pessoas reagiriam da mesma forma?
Duvido. Indignar-se-iam, aposto. Muita gente nas redes sociais se posicionou e apontou o comportamento de Gerald Thomas como agressão, mas a imprensa tratou como algo que “Nicole não esperava”, mostrando o assunto como mero constrangimento.
Se a mulher geralmente já é tratada como “coisa”, como um objeto para deleite masculino, quando ela tem seu corpo e sua sexualidade transformada em um produto vendável, tudo só piora. Nicole faz sucesso porque tem um corpão, segundo os padrões de beleza atuais. Ela aparece de biquini na televisão, tira fotos “sensuais”, usa roupas curtas e provocantes. Como ela “provocou” (apenas sendo quem ela é), ela merece ser apalpada por um estranho.
Porém, não existe isso de “provocar”. Gerald Thomas não é um animal irracional. Ele – e eu e você – deve esperar o consentimento do outro para poder tocar em seu corpo. Nicole Bahls claramente disse “não”, ao tentar tirar as mãos de Thomas. Parece que não é suficiente, como não é suficiente quando viramos o rosto para evitar o beijo do desconhecido na balada.
Criou-se a ideia de que o homem deve insistir e insistir, enquanto a mulher tenta guardar algo. O “não” é visto como “talvez”. No entanto, se a mulher transforma o talvez em um “deixa pra lá”, ela na verdade não está consentindo. Não é um “sim” entusiasmado, intenso, certeiro, como deve ser em qualquer relação. É um “sim” por convenção social, por achar que ele já fez demais, que agora merece o contato sexual, que é melhor ceder e se livrar logo. Isso não é consentimento, é coerção.
O pior é que esses caras não se veem como agressores, uma vez que todo mundo encara tais comportamentos como “normais”. Brad Perry tem uma frase ótima em Yes Means Yes*: “estes homens acreditam piamente que “não” significa “insista”, e nunca se veem como estupradores, apesar de admitirem o padrão de ignorar e suprimir a resistência verbal e física”.
A segunda coisa que me incomoda no caso é terem dito “mas por que ela não fez algo?”. Infelizmente, a maior parte das pessoas que sofre algum tipo de agressão (não só sexual) não faz alguma coisa. Ser vítima é costumeiramente confundido com “ser frágil”. É difícil encarar polícia, legista, imprensa, opinião pública. No caso desse post, o cara estava agredindo na frente de todos – e ninguém fez nada.
Se fosse você a vítima, você não pensaria que a errada é você por não estar gostando, já que todo mundo está achando muito normal?
Lisa Jervis discorre sobre isso no mesmo livro: “estou falando de uma construção cultural nojenta, destrutiva, que encoraja as mulheres a culparem a vítima, a se odiarem, a se culparem, a se responsabilizarem pelo comportamento criminoso dos outros, a temerem seus próprios desejos e a desconfiarem dos seus próprios instintos”.
Se o corpo da mulher é ainda visto como “de todos”, como acontece no caso daquelas que usam a sexualidade para “vender”, fica ainda mais difícil ter noção de que o corpo lhes pertence. Que é só seu. Que ninguém, ninguém pode tocá-lo sem consentimento.
Acabarmos com a cultura do estupro é um processo social, coletivo, mas também individual. Nós temos que encarar nossos corpos como nossos e de mais ninguém, além de repensarmos o sexo, transformando-o no que realmente é: prazeroso e consensual. Qualquer coisa fora disso é agressão.
(PS: Yes Means Yes é um livro de Jessica Valenti e Jaclyn Friedman sobre a cultura do estupro. É uma coletânea de artigos muito interessante e que recomendo muito. O texto de Brad Perry se chama Hooking up with healthy sexuality: the lessons boys learn (and don’t learn) about sexuality, and why a sex-positive prevention paradigm can benefit everyone involved.)

*Texto originalmente publicado em Cem Homens

quarta-feira, março 20, 2013

ABANDONEM O CRISTIANISMO!!!

Abandonem o cristianismo que se esqueceu da Bíblia, que não lê, que não ouve, que não medita e que não obedece a Palavra de Deus.

Abandonem o cristianismo que fez da oração um negócio, uma troca, e não uma comunhão constante com o nosso Pai onde a maior benção é o próprio Deus.

Abandonem o cristianismo da grande omissão, onde não há proclamação, não há testemunho, não há discipulado

Abandonem o cristianismo sem cruz, sem renúncia, sem perdas, sem entrega, sem morte.

Abandonem o cristianismo de fim de semana, só dos domingos, só da aparência; o cristianismo teatral que vai a igreja mas não sabe ser a própria igreja.

Abandonem o cristianismo dos eventos que trazem novidades, mas não produzem santidade, que fazem movimento, fazem barulho, mas não produzem comprometimento.

Abandonem o cristianismo dos eventos que trazem novidades, mas não produzem santidade, que fazem movimento, fazem barulho, mas não produzem comprometimento.

Abandonem o cristianismo que transformou o culto em show, que transformou o homem no centro e na razão do culto.

Abandonem o cristianismo onde Jesus não é mais o Senhor, a cabeça do corpo, onde quem manda são líderes mal intencionados, as famílias mais antigas ou maiores da igreja.

Abandonem o cristianismo onde as pessoas buscam títulos, cargos, posições privilegiadas, e não querem o mais nobre título “servos de Jesus Cristo”.

Abandonem o cristianismo onde as pessoas não são transformadas, não mudam seu jeito de falar, seu comportamento, suas ações e reações.

Por favor, faço um apelo que abandonem esse “cristianismo” vivido por pessoas quem querem ser chamadas de “evangélicas”, mas não de cristãos, não mais de discípulos de Cristo, não mais de servos.

Abandonem esse Cristianismo, ou melhor, voltemos ao Evangelho puro e simples de Jesus Cristo!

Texto de Samuel Amaro dos Santos.
Adaptado por Djalma Maciel

quarta-feira, março 06, 2013

O bom humor necessário

Um elemento essencial no processo de desenvolvimento da intimidade conjugal é o bom humor. O termo intimidade, aqui, não tem o sentido de sexualidade que muitas vezes lhe é atribuído, mas sim o de um encontro significativo, descrito pelo filósofo austríaco Martin Buber1 como algo que está além do subjetivo, aquém do objetivo, sobre a estreita serra onde se encontram o “eu” e o “tu” – o reino do “nosso”. Esta realidade, proveniente do encontro de duas pessoas, mostra o caminho que leva para além do individualismo e do coletivismo, a fim de chegar a um modelo relacional único.

Muitas tensões relacionais produzidas nas falhas de comunicação diárias, seja pelas limitações das palavras, seja pela ansiedade que bloqueia um ouvir pleno ou por qualquer outro motivo, poderiam ser diluídas com uma pitada de bom humor no relacionamento conjugal.

Há casais que jamais riem juntos. Muitos têm dificuldade de rirem de si mesmos e das trapalhadas do dia a dia. Fazemos e falamos muitas coisas equivocadas no nosso convívio diário e precisamos aprender a relaxar por meio do humor.

O terapeuta de casais e de família Jorge Maldonado afirma que nas famílias funcionais há um clima no qual as pessoas se gostam e se divertem juntas. Em contraposição, as famílias disfuncionais demonstram menos energia e espontaneidade, e um tom de depressão e desesperança invade as interações e limita o desenvolvimento. O autor alerta que o excesso de seriedade pode tornar o convívio familiar destrutivo. Quando eu e minha esposa éramos noivos, fomos convidados para uma festa de aniversário na casa de um amigo cuja família era extremamente rígida e com pouca abertura para o humor. Na hora da despedida, o vestido dela acidentalmente esbarrou em um copo de cristal que estava na borda de uma mesa de centro. O copo caiu e quebrou. Houve um silêncio geral na sala e a dona da casa ficou parada à porta, apenas olhando com uma expressão séria. Minha esposa ainda tentou catar os cacos e fazer algo para remediar a situação. Como todos ficaram muito sérios, eu a tomei pela mão, nos despedimos e fomos embora, com a sensação de termos cometido um crime hediondo. É o que acontece quando falta bom humor nas famílias.

Criei um neologismo para tais casais e famílias – chamo-os de “famílias Hardy”, em alusão ao personagem do desenho animado Lippy e Hardy – o leão, otimista, e a hiena, pessimista –, no qual a hiena (Hardy) sempre acha que tudo vai terminar mal e vê o lado negativo em tudo (“Oh dia, oh mês, oh azar...”).

O bom humor permite que uma família rompa o círculo vicioso da retroalimetação, que origina e mantém crônicos os problemas. É preciso brincar; com os filhos – sentar no chão, brincar de esconde-esconde pela casa ou outras brincadeiras criativas – e também com o cônjuge – fazer cócegas, correr na chuva ou coisas semelhantes.

Mesclar o bom humor e a brincadeira com a ternura e a expressão de carinho aprofunda os vínculos e a unidade conjugal. Afinal não é à toa que o apóstolo Paulo, repetidamente, exorta: “Alegrai-vos!” (Fl 3.1; 4.4).

Nota:
1. BUBER, M. Eu e tu. São Paulo: Cortez e Moraes, 1979.

____________
Carlos “Catito” e Dagmar são casados, ambos psicólogos e terapeutas de casais e de família. São autores de Pais Santos, Filhos Nem Tanto e blogueiros do blog Casamento e Família
Lido em: Ultimato on line

terça-feira, fevereiro 12, 2013

A igreja sem porta



Bom seria se todos pudessem enxergar que o Cordeiro de Deus tirou o pecado do mundo e que agora, já, neste exato momento, eternamente, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.


A Lei acabou! Sim! O fim da Lei é Cristo para salvação de todo aquele que Nele crê! Toda dívida de morte e de sangue promulgada contra os homens foi paga integralmente! Está consumado para sempre! A cruz venceu! A loucura da cruz, do sacrifício eterno do sangue derramado pelo Cordeiro Eterno, aboliu de uma vez por todas outros sacrifícios e rasgou o véu da separação entre a humanidade e Deus.



Só não vê quem se faz de cego, quem tem medo da vida. Porque o Espírito da Vida é para todos os que creem, para todos os que se perceberam salvos no amor eterno do Deus que se entregou por toda a criação, por todo o universo.



Sim! A cruz alcançou redentoramente todas as galáxias. Libertou as extremidades acorrentadas do universo. Andrômeda e todos os buracos negros, estrelas anãs e cometas foram salvos. Um dia, por Graça e Misericórdia, se converterão em novos céus e nova terra. A criação encontra-se em dores de parto, para dar à luz o conhecimento de Deus. As dores são fortes, os gemidos são ouvidos por muitos e muitos anos, mas os filhos da Luz se levantarão glorificados, transformados, renascidos eternamente com as vestes lavadas no sangue do Cordeiro de Deus.



Homens e estrelas se converterão num eterno cântico de adoração ao Rei Eterno e Imortal.



Nuvens de testemunhas se aglomeram para receber os novos irmãos e irmãs que vão sendo feitos nesta igreja sem portas, sem muros, sem nomes ou fronteiras. A Igreja de Deus é invisível, indomável e não conhece outra forma de servir e adorar a Deus que não seja "onde estiverem dois ou três reunidos em seu nome". Simples assim, em todo e qualquer lugar... Com toda e qualquer pessoa.



Esses irmãos não são salvos pela frequência aos templos, não são salvos por terem seus nomes arrolados nos livros humanos, não ostentam tradições ou formas de culto, mas se encontram salvos e perdoados pela Graça de Deus. Somente por Graça e Misericórdia são salvos, nada além disso. Isto é fruto da bondade de Deus. Sim! Deus é amor!



A igreja com portas tem medo da igreja sem portas. Claro! Os maus ensinam que a salvação acontece somente da porta para dentro. Querem impor suas próprias vontades e espoliar os bens dos insensatos. Mas quem realmente encontra a salvação a encontra no aprisco do Bom Pastor que não conhece fronteiras nem de culturas nem de língua, muito menos de institucionalidade. O Bom Pastor dá de graça a vida sem exigir nada em troca. Bebam de graça da Água da Vida, sem sacrifícios e sem ofertas! É o que está escrito.



Para a liberdade foi que o Eterno Sumo Sacerdote nos reuniu neste culto, nesta celebração chamada chão da vida. No Cordeiro o culto é eterno, não acontece somente aos domingos, mas flui incessantemente no respirar e andar de cada um que é chamado de filho.



A Nova Aliança foi escrita na carne dos corações desta gente cansada e sobrecarregada que aprendeu a entregar seus fardos para quem é Manso e Suave. Nele não há mais medo, não há mais lágrimas de morte. Até quem já morreu Nele encontra a Vida Eterna.



Os céticos duvidam, os pessimistas tentam desconstruí-lo, os medrosos tentam parar de ouvir Sua voz, mas o testemunho do Espírito sopra poderosa e calmamente. Um dia todo olho o verá, todo joelho se dobrará e toda língua confessará que Ele é Senhor absoluto de toda a existência. No dia em que o mar devolver os seus mortos, todos saberão.



Senhor da Vida é o seu nome! Venceu a morte para sempre! Assim será o cântico eterno.



O Deus que faz o convite para a vida te abençoe rica, poderosa e sobrenaturalmente!


Pablo Massolar

quinta-feira, fevereiro 07, 2013

Em questão: Freud e C. S. Lewis


De Gabriele Greggersen para Ultimato

O livro Deus em Questão, de Armand Nicholi, tem por objetivo apresentar os argumentos de um ateu e de um cristão sobre os mesmos assuntos: Deus, amor e sexo. O que a maioria dos leitores não sabia é que apesar da considerável diferença de idade (42 anos), eles tinham muito em comum:

As experiências de infância de Freud e Lewis revelam um paralelismo considerável. Tanto Freud quanto Lewis, quando meninos, tinham dons intelectuais que permitiam antever o profundo impacto que eles provocariam como adultos. Ambos sofreram perdas significativas nos primeiros anos de vida. Ambos tinham um relacionamento difícil, cheio de conflitos com os seus pais. Ambos foram instruídos desde cedo na fé da sua família e registraram uma aceitação nominal daquela fé. Ambos rejeitaram o sistema de fé anterior e se tornaram ateus na adolescência. Ambos leram autores que os persuadiram a rejeitar as crenças nominais da infância. Freud foi fortemente influenciado por Feuerbach e os muitos cientistas que ele estudou quando estudante de medicina e Lewis, pelos seus professores, que lhe davam a impressão de que “as ideias religiosas não passavam de ilusão... uma espécie de absurdo endêmico”. Lewis, entretanto, acabou rejeitando o ateísmo e abraçou a mesma visão que um dia havia considerado absurda. Como ele explicaria essa mudança drástica? O que levou Freud a continuar rejeitando a rica herança espiritual da sua família e permanecer ateu? (NICHOLI, 2005, p. 42-43)

Na primeira parte do livro, Nicholi analisa o percurso dos dois protagonistas, chamando a atenção sobre as suas experiências com a religião na infância, ambas negativas, mas com resultados contrastantes: uma adesão ao ateísmo materialista e uma conversão ao cristianismo após os 30 anos de idade. Lewis tendo sido influenciado fortemente na sua posição de ateu por Freud utiliza em parte os argumentos dele como base para apresentar as respostas alternativas do cristianismo. Os dois posicionamentos contrastam na prática principalmente face à morte de entes queridos e da própria morte. Enquanto Freud demonstra um medo e até pavor diante dela, Lewis demonstra uma serenidade sobrepujante ao período de “lamentações” da perda (conferir “Anatomia de uma Dor”).

Descobrimos ainda o celibato que Freud decidiu adotar nas últimas décadas de sua vida com sua esposa, que torna difícil entender como foi que ele se tornou o fetiche da liberalização sexual nas sociedades ocidentais; além de seu pedido ao seu médico, de que praticasse a eutanásia, quando ele ficou sabendo que seu câncer era terminal. 
 
O primeiro ponto em que Lewis e Freud discordam teoricamente é a questão da criação do universo: se há ou não uma inteligência para além da natureza. Freud tinha uma visão naturalista, enquanto Lewis redefine o próprio conceito de “natureza”, inscrevendo-o no contexto maior da criação, visão essa que herda da leitura e estudo dos grandes clássicos cristãos da Idade Média. Nessa perspectiva criacionista, a natureza admite a possibilidade do sobrenatural, sem, com isso, necessariamente negar a ciência.

Outra questão muito importante é a moral: o que define as nossas atitudes, uma convenção social ou uma “lei” moral? Freud acreditava que as sociedades, para o bom convívio, tinham que se submeter a uma “ditadura da razão” (2005, p. 73), e confessou ao seu amigo, pastor Pfister, que não se preocupava muito com o certo e errado (FREUD, apud NICHOLI, 2005, p. 73). Já Lewis, depois de sua conversão, passou a crer que a moral segue leis parecidas com as leis da matemática: todos nós sabemos em linhas gerais o que é certo e errado, porque elas estão inscritas na nossa natureza. Um dos grandes dilemas da humanidade, que é um dos motivos para a nossa angústia, é que sabemos o que é certo fazer, mas não conseguimos praticar o certo o tempo todo.

O tema da “realidade” é outro assunto importante do livro. Quando em “O Futuro de uma Ilusão” Freud fala com orgulho do filho que rejeita os contos de fada, Lewis diria que o filho estava adotando uma postura demasiadamente “adulta” para a sua idade e que muitos “adultos” podem aprender com o tipo de realismo que se encontra subjacente ao mundo das fadas. E nisso ele é completamente chestertoniano. Em uma de suas obras-primas, “Ortodoxia”, no capítulo dedicado aos contos de fada, Chesterton afirma: “O país das fadas nada mais é do que o país ensolarado do bom-senso”. (CHESTERTON, 2007, p. 82).1

Nicholi deixa clara a importância que Chesterton teve no processo de conversão de Lewis para o cristianismo, que Freud veria como fenômeno patológico e como cada vez mais profissionais da área reconhecem experiências espirituais como fenômenos não ligados a neuroses. Lewis também acreditava, ao contrário de Freud, que, se temos “desejos reprimidos”, isso aponta para a alguma realidade concreta. Não podemos simplesmente “inventar” anseios do nada, nem mesmo a partir de algum mito presente no inconsciente coletivo. Se temos desejo por coisas espirituais e por um Deus, ele deve existir concretamente. Toda a concepção de Lewis em relação à ilusão, à ficção e ao imaginário é diferente da de Freud em seus pressupostos e suas implicações. O pressuposto para Lewis é um mundo criado por um Ser Infinito que imprimiu a sua imagem no homem e essa impressão, essa imagem, faz com que ele sinta saudade ou um “longing”, um anseio, por seu Criador. Para Freud, não há essa figura do criador, o mundo veio do nada e o desejo pelo infinito e por coisas espirituais residem em um enorme ludibrio coletivo. Enquanto para um as coisas espirituais e de imaginação apontam para Deus, para outro elas apontam para uma doença crônica e coletiva. Em Lewis a imaginação, que assume uma dimensão tão positiva, quanto à própria ilusão e a culpa, que longe de ser uma neurose, como em Freud, apontam para a verdade da queda e limitação do homem.

Lewis afirma que crê em Deus, não como uma fantasia ou pura e simples imaginação, mas como “crê no sol, que não pode encarar diretamente, mas por meio do qual ele consegue ver e reconhecer todas as demais coisas”.

Ele também acreditava que “fazer de conta”, expressão usada por Freud para se referir à hipocrisia que muitas vezes envolve a religião, faz parte da natureza humana e que imitar é um dos comportamentos mais naturais do homem, precisamente porque ele foi criado como uma “imitação de Deus”. Acontece que no cristianismo o faz-de-conta acaba se tornando em realidade. Isso se mostra na história, citada em “Cristianismo Puro e Simples”, do rei que, por ser feio, passou a usar uma máscara para não assustar os seus súditos, e quando ele resolve retirá-la a assumir o seu rosto, qual não foi sua surpresa, quando viu que o rosto havia assumido a forma da máscara.

Nota:
1. Como foi bem observado por Nicholi, Lewis também deve a outro clássico de Chesterton, “O Homem Eterno”, suas convicções cristãs.

Referências:
CHESTERTON, G.K. Ortodoxia. São Paulo: Mundo Cristão, 2007.
FREUD, Sigmund. O Futuro de Uma Ilusão, O Mal-Estar na Civilização e Outros Trabalhos(1927-1931) Rio de Janeiro: Imago, 1974. (Edição Standard Brasileira de Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v XXI). Disponível aqui. Acesso 16 Ago. 2012.
NICHOLI Armand. Deus em Questão: C.S. Lewis e Sigmund Freud debatem Deus, amor, sexo e o sentido da vida. Trad. Gabriele Greggersen. Viçosa: Ultimato, 2005.

terça-feira, janeiro 29, 2013

Pra mim já deu, chega!




O domingo do dia 27 de janeiro de 2013 mal havia começado pra mim quando ouvi na TV da sala a triste notícia da tragédia na danceteria Kiss na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Os noticiários já informavam que eram 90 os mortos e os números não paravam de crescer. Ver aquelas cenas, o desespero daqueles jovens martelando as paredes e toda aquela fumaça, derrubaram a minha alma. Perplexa, vencida por um profundo sentimento de angústia e pesar, lamentei por aquelas jovens vidas cujos sonhos foram abreviados e por aquela dor imensa que, sem a menor piedade, invadiu o lar de tantas famílias.

Em pouco tempo anunciavam o número de 180 mortos. Fiz um breve comentário no meu twitter que dizia: "Diante de uma tragédia como essa, não há mesmo nada para se dizer, apenas lamentar." Nesse momento me dei conta de que era melhor (no sentido de ser mais saudável mesmo) não ficar on-line no Facebook, isso porque, sempre que há uma tragédia, há aqueles que se julgam tão espirituais e superiores, principalmente no meio evangélico, que, não contentes com seus pensamentos cheios de orgulho e soberba, ainda nos fazem o desfavor de compartilhá-los nas redes sociais. E os fazem com o peso de julgamento. 

Tragédias

Em 2001 o mundo ficou chocado com o ataque terrorista sofrido pelos E.U.A no qual os edifícios conhecidos como 'As torres gêmeas' vieram abaixo e o saldo final foi de quase 3 mil mortos. "Deus está pesando a mão sobre os E.U.A" era um dos comentários que mais eu lia ou ouvia, disparados por seus "porta-vozes", aqui chamados de crentes.

Em 2004, não bastasse a notícia da morte de cerca de 230 mil pessoas no terremoto seguido de tsunami no Oceano Índico que atingiu 13 países, ainda tive que aguentar os comentários vindos de alguns crentes todos "cheios da verdade" sobre o agir de Deus e sobre julgamento divino. 

Em 2010 o horror veio das imagens do Haiti, onde um forte terremoto, seguido de outros tremores feriu cerca de 250 mil pessoas, desabrigou 1,5 milhão de habitantes e matou mais de 200 mil pessoas, incluindo 21 brasileiros, a maioria soldados que auxiliavam no processo de pacificação do país, um dos mais pobres do mundo. Lembro-me com tristeza do que ouvia: "Também, de um país praticante do vodu, o que se pode esperar?". Sim, mais um crente falou.

Já vimos o teto da igreja Renascer em Cristo desabar em São Paulo, ferir cerca de 50 pessoas e matar uma.  

Em agosto do ano passado, um acidente trágico envolvendo dois ônibus (um deles transportava membros da igreja Sara Nossa Terra), dois carros e uma moto, deixou pelo menos 10 mortos e 89 feridos numa estrada do Paraná.

Qual seria a "explicação divina" dada pelos crentes para esses e outros desastres que envolveram crentes no Senhor Jesus? Teriam tanto peso de julgamento como as anteriormente citadas?

Por qué no te callas?

Não vou reproduzir o que infelizmente li em redes sociais, comentários de crentes que demonstram um tipo de super espiritualidade que, sinceramente, me deixa estarrecida Que falta de compaixão, de graça e de sabedoria. Porque, se uma tragédia como essa não é capaz de comover um crente em Cristo Jesus, que ao menos demonstre um mínimo de decência e respeito e se cale.

E há uma foto do vocalista da banda envolvida na tragédia de Santa Maria, posando ao lado de um cartaz onde há uma caveira Dj envolvida por fogo e outras caveiras dançando em meio as chamas, que, nas mãos de alguns crentes, virou uma "profecia tardia". Há quem afirme que "Deus" estava avisando o que iria acontecer naquela festa.

Não sei mais como dar nome a esse tipo de comportamento por parte de crentes evangélicos nesse país. Suas bocas falam tanto de "juízo divino" como se fosse possível sondar ou compreender o que Deus faz ou deixa de fazer. Esquecem-se de que o conselho da Palavra de Deus também é: chorar com os que choramTem sido sempre assim e confesso, pra mim já deu, chega!

Um lembrete

Tragédias podem acontecer em quaisquer lugares: danceterias, barcos, boates, passeatas, feiras, eventos diversos e também em igrejas. Sim, em igrejas!

Ou ignoramos que uma porção imensa de prédios utilizados por várias denominações espalhadas nesse país não estão aptos para receberem o número de fiéis que frequentam os cultos semanalmente? E todas as medidas de segurança (e pessoal treinado para o caso de emergências) que são ignoradas? Será que nunca estivemos num local com mais de 100 pessoas reunidas e sequer nos preocupamos se há extintores de fogo no lugar ou saídas de emergência, tudo visivelmente sinalizado?

Desde o domingo 27 o nosso país entrou em choque, ficou perplexo e chorou. E anseio para que a inevitável dor agora vivida sirva de impulso para que medidas muito rígidas sejam tomadas e leis sejam modificadas. E que a tragédia de Santa Maria não se repita.

Foi lá, mas podia ter sido aqui. Foram os filhos deles, mas poderia ter sido os de meus pais. Foram amigos e amigas deles, mas poderiam ter sido os meus. Foram eles, mas poderia ter sido eu.

Que o Eterno console e conceda saúde aos que creem e, também, aos que não creem. Porque como o sol nasce para todos e suas misericórdias não têm fim, ele pode fazê-lo. 
Que ele me livre dos crentes-chatos-e-religiosos e que, por sua graça, não permita que meu coração se endureça a esse ponto.

Em luto.
#2 Andréa Cerqueira

quarta-feira, novembro 14, 2012

Sim, retirem a expressão “Deus seja louvado” das nossas cédulas!




Ontem pela manhã, ao ler algumas notícias do dia, fui surpreendida com a informação de que o Ministério Público Federal solicitou a exclusão da frase “Deus seja louvado” das cédulas de reais, a nossa moeda. A surpresa, no entanto, deu-se pelo fato de que o Ministério Público Federal se ocupe de tal causa. Informando-me um pouco mais sobre o assunto, li que “no ano passado, a Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão (PRDC), órgão do Ministério Público Federal recebeu uma representação questionando a permanência da frase nas cédulas de reais. Durante a fase de inquérito, a Casa da Moeda informou à PRDC que cabe privativamente ao Banco Central (Bacen) “não apenas a emissão propriamente dita, como também a definição das características técnicas e artísticas” das cédulas. Para o Bacen, o fundamento legal para a existência da expressão “Deus seja louvado” nas cédulas é o preâmbulo da Constituição, que afirma que ela foi promulgada “sob a proteção de Deus”. (Em Tempo online)

Pois bem, como crente em Deus que sou, manifesto-me: Por favor, retirem a expressão “Deus seja louvado” das nossas cédulas de reais!

Porque Deus realmente não pode ser louvado através de uma moeda que serve para alimentar a ganância de uma porção de pessoas sem escrúpulos que vendem seus cargos, influência e poder no exercício de funções públicas para elevar a margem de corrupção desse país - Dados oficiais de operações da Polícia Federal em 2011 apontam que quase R$ 6 bilhões sumiram das contas públicas.

Porque Deus de maneira alguma pode ser louvado diante da falta de investimentos na saúde pública, educação, segurança e programas de real eficiência no combate à pobreza e à miséria, quando é necessário trabalhar mais de quatro meses para se pagar a pesada carga de impostos nesse país.

Porque Deus não é louvado quando os salários dos professores no Brasil são vergonhosos, tampouco quando se permite que universidades federais fiquem sem aulas por meses, em greve, sem que nenhum acordo seja feito para atender às reivindicações de professores e também de alunos.

Porque um povo que se sente inseguro não tem motivos para louvar a Deus quando os profissionais que cuidam da segurança de suas cidades são mal remunerados, o que só agrava a corrupção e a violência.

Porque aqueles que buscam auxílio no SUS não o encontram com qualidade e inúmeras vidas são interrompidas pela falta de estrutura agravada por precários recursos financeiros. Não se louva a Deus assim.

Porque Deus deve mesmo ter vergonha dessa frase estampada nas cédulas, as mesmas que são usadas tantas vezes para financiar o “jeitinho brasileiro”, como na rodovia, quando a “gorjeta” é concedida a algum policial rodoviário e se faz vista grossa para a infração cometida, ou ainda na falsa declaração anual do imposto de renda ou no acordo extraoficial que compra o outro lado em uma disputa judicial.

Porque não é possível imaginar que Deus seja louvado enquanto instituições sem fins lucrativos e que deveriam prestar serviços à comunidade enriquecem a custa das verbas públicas.

Impraticável também reconhecer qualquer louvor a Deus também na prática de inúmeras instituições religiosas, nas quais muitas igrejas evangélicas dilatam os números, aproveitando-se da falta de informação, conhecimento e até da fé de milhões de brasileiros que dizimam e ofertam, financiando a prostituição espiritual de líderes religiosos que venderam suas almas ao Dinheiro, tornando-se poderosos e repugnantes.

Por favor, retirem essa expressão das cédulas do real!

Porque ainda que não faça menção a uma religião específica, grupos menores (como os ateus, por exemplo) podem realmente se sentirem ofendidos pelo impresso “Deus seja louvado” em suas notas. Contudo, não se esqueçam de abolir todos os feriados religiosos dessa nação! Inclusive, servidores públicos não deveriam, portanto, desfrutar de descanso nessas datas, tampouco de pontos facultativos, porque o Estado é laico.

Mas quando a expressão “Deus seja louvado” for retirada das cédulas do real, daí sim, a vida de todos os cidadãos desse país irá mudar para melhor. E então, finalmente, o Ministério Público Federal poderá se ocupar das questões “menos importantes”. Será?


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#2 Andréa Cerqueira
(@acspira)