segunda-feira, fevereiro 11, 2013

Papoulas





Gosto de flor.

Sou capaz de trocar o caminho de retorno para procurar por elas; e quando possível, fotografá-las.

Mas não gosto apenas do carinho que elas fazem nos olhos e da delicadeza que provocam na pele, gosto também dos significados que elas guardam em suas histórias e lendas.

Confesso que através deles que prefiro algumas (mas não conte às outras, por favor. Flor ressentida brota espinhos).

Uma das minhas preferidas se chama Papoula, elas me lembram esperança e qualquer outra coisa bonita que brote dentro da gente depois de dias nublados, e cinzentos.

As papoulas são vermelhas e, como eu, gostam de frio. Mas seu significado é grande e não consegue se guardar em palavras; para descobri-lo é preciso da história (sim, 'história' daquelas que acontecem de verdade e não 'estórias' que só acontecem na alma da gente).

Seu significado nasceu no final da 1º Guerra Mundial, quando surgiu a notícia de que os militares que sobreviveram voltariam para casa.

Na casa de Mary, a notícia foi dita com ruídos e chiados de um rádio velho que funcionava a pilha, mas foi o som mais doce que ela e a família poderiam receber.

Ela esperava ansiosa pelo seu irmão. Ele ainda era moço mas tinha uma filha e uma esposa que também esperavam ansiosas por ele.

Os vizinhos também esperavam por alguém.Todos tinham parte de seus corações nos campos de batalha.

Mary gastava a maior parte das horas no lado de dentro de casa, geralmente lendo ou fazendo silêncio para ouvir as notícias sobre a guerra.

Nem ao menos espiava o lado de fora. Olhar pela janela era como ver a morte encarnada nos rastros de sangue e matar o sono das noites com imagens de puro terror.

Mas aquele dia era especial, todos sabiam que teriam seus jovens de volta. A alegria estava tão distante nos últimos meses que ninguém se lembrava do quanto era bom se sentir feliz.

O sol voltou três dias depois do retorno dos militares, e pôs se a derreter o gelo maculado de sangue vermelho.

'Venha ver, pequena criança! Brotou bondade da terra. O que era sangue tornou-se flor.' _disse o velho avô à Mary, diante da janela.

Pequenas papoulas haviam florescido e junto com elas: o riso, a presença de quem tinha ido e (por pura sorte dos céus) retornou e a saudade de quem se foi.

O avô da menina, de forma bonita ensinou: 'A bondade para amanhecer a alma não precisa ser forte, basta ser terna.'


Beijos, Lu (a Poulain!)



Nota:  Desde 1921, flores de papoula florescem nas lapelas e colarinhos de muitos canadenses em memória dos que perderam sua vida na guerra.

Para quem deseja saber mais sobre o significado das papoulas, clique AQUI.


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