terça-feira, outubro 18, 2011

Aprendiz de mim: a questão das mudanças #6


Mudar, talvez seja um verbo que eu saiba conjugar muito bem. Por hora foram 3 estados, 05 cidades e mais de 02 dezenas de casas diferentes. As circunstâncias que as impulsionaram foram sempre boas, ainda que por vezes inicialmente assustadoras. Saber conjugar é diferente de saber vivenciar. A prática é por vezes penosa.

Aquela sensação de segurança, que embora frágil, nos parece cimentada no mais forte concreto de nossas ilusões de que temos o controle...o controle de onde está o melhor pão para nosso café, o supermercado que agrega melhores itens e preços, a casa dos amigos, a escola, a universidade, a academia, muitas vezes a família e até mesmo alguns amores – passados, presentes ou quiçá futuros.

Mudanças físicas...

Ocorre que há também as mudanças físico-químicas-biológicas. Talvez a adolescência seja o seu “boom” por excelência. Lembro-me de um episódio interessante em minha pré-adolescência. Um belo dia ao me banhar me deparei com um pequeno nódulo crescendo em meu tórax e percebi apavorada que não era apenas um, mas dois. Lembrei-me das histórias que minha mãe contava sobre minha avó Amélia que faleceu de câncer de mama quando minha mãe era ainda uma adolescente. Aquelas histórias da doença, do seu estado de fragilidade, dos poucos quilos que restaram, mas da sua fé inabalável até o último suspiro sempre me impressionaram. E agora, ali, embaixo do chuveiro, tudo vinha à tona. Teria eu herdado o câncer? Seriam aqueles nódulos, tumores? Os dias se seguiram em silêncio e tristeza. Pensava: - Como contarei isso para minha mãe, ela já perdeu minha avó tão nova e agora perderá uma filha! O quadro era cinzento em minha visão infantil. Acontece que mães são mães e ela foi percebendo meu estranho amuamento, minhas poucas palavras, minha quietude reveladora de que aquela não era eu. Foi então que ela me deu "aquela prensa" que só as mães sabem dar, estávamos na casa de uma tia de férias e então revelei aos prantos para as duas que estava com tumores e que deveria ser câncer e que iria morrer. Após as mesmas pedirem para “tocar” meus tumores, caíram na gargalhada e exclamaram: -  "Que câncer que nada guria, são teus seios que estão nascendo!

Ufa! Eu já não era uma condenada à morte, mas compreendi que uma fase de minha vida estava condenada a sair de cena para dar lugar à outra. Seios, quadril, hormônios, menstruação, cólicas, espinhas. Me achava uma "monstrinha". Que mudança aterradora esta que me tirava das molequices e me deixava feia, com crises de choro sem motivo aparente e com mais interrogações do que parecia ser sensato alguém daquela idade ter. Foi uma fase turbulenta, cheia de transições dentro de mim e na paisagem ao meu redor. Nesta época os problemas agigantaram-se entre meu pai e minha mãe, havia o alcoolismo como intruso em nossa família e de certa forma alguns “saltos” foram dados. Não pude ir a tantas baladas como gostaria, pois não sabia se meu pai iria chegar delas antes ou depois de mim e temia por minha mãe e irmãs. Mergulhei nos estudos e nos livros, era a minha forma de contribuir em meio àquele caos reinante.

Mudanças se sucederam, inúmeras que não cabem aqui mencionar, mas sei que houve o tempo em que a adolescente deu lugar à mulher. As coisas se acalmaram em casa e pude “curtir a vida” sem muitas pretensões. 

A vida parecia correr tranquila, mas eis que re-surgem velhas questões – os velhos: “quem somos”, “onde estamos”, “para onde vamos”. Li de tudo sobre tudo que se relacionasse ao tema. Por fim, rendi-me à Bíblia. E em um processo que é longo e detalhado demais para explicar aqui, uma nova mudança: a consciência espiritual. Isto re-significou tudo, instalou novos paradigmas, abalou estruturas, misturou-se à religiosidade, furtou-me muitas coisas, agregou-me outras tantas, trouxe-me algumas respostas e muitos outros questionamentos que hoje sei para quem entregar, ainda que por vezes a resposta seja apenas o recebimento e o silêncio.

Assim como os nódulos de meus seios eram prenúncios de mudanças, a vida vira e mexe nos mostra seus nódulos e quando os constatamos, podemos nos apavorar, achar que o mundo vai acabar, que estão a nos furtar coisas preciosas. Para que mudar? Está bom assim, quero esta “segurança”, esta sensação de controle que nos falsifica uma paz que sabemos que não deveria jamais ser firmada em circunstâncias.

No meio deste “processo”, sim mudanças são processos, possuem fases, ainda que por vezes não consigamos discerni-las, enfim, em meio a estes “quandos”, ”tantos” e “tudos” da vida, adquiri alguns lemas talvez propícios à alguma placa de caminhão, mas que me fazem bem...dois deles são: “o bom é o inimigo do melhor”“como termina é que conta”. Não são meus, pincei-os em minhas andanças, mas me fazem lembrar da borboleta. Seu processo de transformação, ou metamorfose (acho essa palavra mais bela) é aterrador. Em um momento uma plácida lagarta a modiscar folhas e rastejar por pequenos espaços em movimentos lentos. De repente, um casulo. Escuridão, temperatura estranha, um novo nome: já não é lagarta e tampouco borboleta: é crisálida. E ainda quando borboleta, é preciso aguardar o tempo certo para sair do casulo, se tentarmos ajudá-la as asas ficarão fracas e inaptas ao voo. Até que surge o dia da grande saída, como ela sabe a hora de voar eu não sei. Mas de repente o casulo fica para trás, novos ares, novas temperaturas e lugares e paisagens que jamais seriam avistadas se ela teimasse em continuar lagarta.

Quantas vezes teimamos em ser lagarta pelo resto da jornada de nossas vidas!


Mudança dói, esfola, atemoriza, fadiga, talvez seja uma “muda-dança”, uma dança silenciosa que se repete em ciclos em nossa existência. Mas acredito que as mesmas são planejadas pelo Eterno, caso contrário não teríamos todo este processo de formação, nascimento, crescimento, envelhecimento e morte. Ele nos quer mudando, melhorando, evoluindo, aprendendo em cada etapa, curtindo cada fase, vivendo a intensidade das dores e alegrias, deslumbramentos e apavoramentos. O criador nos fez mutantes...o Pai nos deu o livre arbítrio, pois acredito que Ele espera de nós mudanças, crescimentos e transmudações.

Entre lágrimas ou sorrisos aprendo sempre que mudar é preciso,

Roberta Lima

“Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses” 
Rubem Alves
Reações:

3 comentários:

  1. Essa noite, adormeci inquieta, amedrontada pelas mudanças ainda não compreendidas e ainda sim cabe em meu peito uma fé tal. Há algumas semanas atrás acordei tão corajosa, disposta a enfrentar qualquer coisa e com o passar dos dias percebi que quando o medo chega já não há tanta coragem assim. Eu não sou tão corajosa. Então eu oro, Senhor vem comigo! Ensina-me a confiar e salva-me de mim e ainda que eu não veja tua mão eu confio em teu coração Pai, que sempre trás o melhor para mim. Robertinha mudar é preciso e como é preciso e mudarmos sob os cuidados do mestre é ter certeza que nada absolutamente nada nos machucará. Enfim, pela manhã ao abrir os olhos agarrei-me a essa fé tal e fiz o convite PAI, VEM COMIGO! bjimmm imurchável meu coração alegrou-se com tuas mudanças.

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  2. Há três anos minha vida deu uma guinada, tudo mudou.As vezes me perguntam como eu consigo suportar a minha vida (mmoro sozinha, em cidade estranha), daí eu respondo: Sou da opinião que nós não nos conhecemos o suficiente. Creio que em alguns casos o processo de auto-conhecimento acontece simultâneo às mudanças, pelo menos foi assim comigo, ao menos esse processo ficou mais visível.
    Mudar é preciso, crescer é essencial.
    Belas palavras Roberta, bjs!!!

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  3. Gurias queridas,

    Obrigada pelos comentários que tanto acrescentaram ao post...

    Bjs

    =)

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