segunda-feira, novembro 28, 2011

Sobre teologia, música e Deus como garçom



Li o livro “Se eu pudesse viver a minha vida novamente...” do Rubem Alves. Em um dos textos li a seguinte declaração: “Não escrevo teologia. Como poderia escrever sobre Deus? O que faço é tentar pintar com palavras as minhas fantasias – imagens modeladas pelo desejo – diante do assombro que é a vida.” e coloquei-me a pensar.

Sou naturalmente curiosa. Gosto muito de estudar. Quero sempre aprender, duvidar, pensar, questionar e aprender novamente. Quando pensei que após alguns anos de estudos e alguma experiência em relação à minha fé eu já sabia toda a base de que precisava, veio a vida e mudou tudo. Duvidei da teologia que aprendi. Questionei suas interpretações bíblicas. Comecei a comparar mais cuidadosamente o que aprendi com a vida de Jesus, as cartas de Paulo e o restante do Novo Testamento e desde então tenho estudado, em toda a Palavra, o contexto de alguns dos “versículos chaves” que baseavam as crenças da teologia que aprendi.

Concluí que não quero essa ou aquela teologia. Teologia por teologia não me edifica. Mas uma teologia séria, que me auxilie a entender as Escrituras pode ser instrumento para que o Espírito Santo de Deus me revele a Palavra e me transforme, dia a dia, moldando o meu caráter para fazer a vontade do Deus que é. Meu alvo não é a teologia, mas ela é um processo importante. É como os óculos, uma boa teologia me ajuda a enxergar e compreender, uma má teologia vai contribuir apenas para que eu me torne religiosa.

Mas nenhuma teologia é suficiente para expressar a grandiosidade de Deus. Ela é limitada, pois somos limitados. E o que é limitado fica impossibilitado de compreender, argumentar e definir aquele que é ilimitado, Deus. O que não se pode medir é imensurável e isto é bem simples.

Contudo nós, cristãos, deveríamos levar muito a sério o nosso estudo da Palavra. Ler bons livros de teologia e não cessar, em tempo algum, de ler as Escrituras – preferencialmente usando mais de uma tradução bíblica, ler comentários, rodapés e livros de estudos. Isso tudo porque nem sempre é fácil entender o contexto de muitos argumentos bíblicos. E você já deve saber que, texto fora do contexto, vira pretexto.

“O Eterno, o seu Deus, cuidará das coisas encobertas, mas as coisas reveladas são da nossa conta. Cabe a nós e a nossos filhos cuidar de todos os termos desta Revelação”. 

(Deuteronômio 29:29 – versão A Mensagem – Eugene Peterson).

Portanto, uma das premissas básicas e das mais necessárias nos tempos atuais para a interpretação bíblica continua sendo: estudar. É preciso aprender para então aplicarmos esse aprendizado ao nosso dia a dia. Mas o que tenho ouvido, lido e visto, é uma série de argumentos formados por textos fora do contexto, usados de modo bem afiados e que chegam a machucar aquele que tem outra opinião sobre determinado assunto. E voltamos, mais uma vez, à lista das coisas que o crente “pode e não pode”. Pergunto-me: até quando?

Até quando vamos reproduzir essa cultura evangélica que quase nada tem a ver com o Evangelho? Até quando nos permitiremos repetir os discursos de algumas proibições que representam, tantas vezes, as preferências de determinados pastores e comunidades religiosas, ao invés de aprofundar nosso conhecimento bíblico do assunto?

Algumas pessoas afirmam: não se pode ouvir outra música que não seja “gospel”. Sério? Onde está escrito isso? Porque ainda não encontrei essa proibição nas Bíblias que tenho lido. Nelas, inclusive, leio que os judeus também tinham suas músicas folclóricas, não somente as que exaltavam a Deus. E então os discursos sobre a dualidade da vida começam: igreja X mundo. Discursos baseados, geralmente, em versículos que falam “contra” o mundo. O mesmo mundo que “Deus amou de tal maneira, que enviou seu único Filho para salvá-lo”, como afirmou João.

Somos continuamente forçados a argumentar sobre igreja X mundo, liberdade X libertinagem, sagrado X secular, pode X não pode.

Enquanto reduzimos a essas coisas o Evangelho de Jesus, barbáries continuam a serem feitas “em nome de Jesus” em todos os cantos. Deveríamos nos revoltar contra a exploração e o fato de tantos líderes enriquecerem a custa de milhares de pessoas que sobrevivem com um ou pouco mais de um salário mínimo por mês. Revoltemo-nos contra o mau uso das leis que beneficiam as entidades que não visam lucros (e igrejas deveriam ser parte dessas). Sejamos intolerantes contra a manipulação religiosa.

Mas se queremos discutir a legitimidade de algumas músicas, que tal refletirmos sobre essas músicas “gospel” que colocam o EU no centro, tornando Deus apenas um garçom? Sim, nunca prestou atenção em versos imperativos como “restitui!”, “traz de volta o que é meu”, “sete vezes mais” e tantos outros? Mas, se é em nome de Jesus e a banda é gospel, tudo bem. Certo?

Um abraço,
#2 Andréa Cerqueira
Reações:

2 comentários:

  1. Muito lúcido esse texto! Gostei bastante e vou até mandar para algumas pessoas (com a referencia do blog obviamente). Enfim, parabéns! Como sempre ótimo conteúdo!

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  2. Isso aí, mana teóloga!

    Teologia é muito importante, mas a teologia jamais pode ultrapassar e nem desprezar o que as Escrituras dizem sobre quem Deus é, ou o que Ele fez e faz. Hoje tem muita gente desprezando as Escrituras e a soberania de Deus, só pegam o que agrada da bíblia (humanistas), o que não gostam descartam como lixo, sendo que o próprio Jesus em nenhum momento desprezou as Escrituras (nem o que os profetas escreveram), inclusive Ele citou várias vezes os profetas e as escrituras e disse até que errávamos por não conhecê-las.

    Devemos ter prudência de caminhar apenas sobre o que foi revelado, pois a bíblia não explica tudo. Devemos ter pés no chão e reconhecer que nunca conseguiremos entender tudo, mas devemos crer que o que foi revelado nas escrituras é verdade. Só pq Deus não explicou tudo nos detalhes não quer dizer q não seja verdade. Tem coisa q não entenderíamos nem se Ele explicasse. Só na glória mesmo pra conseguir entender.

    Viver em santidade também é importante, foi pra isto que Ele nos chamou, pra sermos semelhantes a Jesus, para agradar ao Pai e não a nós mesmos. Muitos se esqueceram desta verdade...

    Aceitemos isto: Deus nunca vai ser exatamente como nós queremos, isto seria um ídolo. Ele é o que revelou ser: um Deus santo, justo e bom. E nós somos barro, pecaminosos, egoístas, ídolos de nós mesmos e não merecedores de misericórdia. Mas apesar de tudo que somos Ele nos amou primeiro, em Cristo, e isto deveria ser o bastante pra nos deixar muito gratos a Ele.

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