terça-feira, janeiro 17, 2012

Liberdade caça jeito...



Esta manhã, logo bem cedo, quase madrugada para mim, minha mãe adentra o quarto, me acorda e diz:

- Roberta, precisas me ajudar a salvar um pássaro.

 Totalmente sonolenta, tento compreender suas palavras. Pássaro? Onde? Quando? Como? Com quem? Teria minha mãe se interessado por causas ambientalistas? Tá, confesso! Essas perguntas tentaram chegar ao meu cérebro, mas diante do meu estado de torpor, suas interrogações é que me exclamaram. Levantei atordoada e ela foi me conduzindo até a varanda de nosso apartamento. A mesma é toda envidraçada e tem duas partes, uma consiste em um retângulo espaçoso e outra é um corredor minúsculo que, para nossa vergonha, é no momento portador de tranqueiras que ainda não achamos como guardar e/ou nos desfazer.

 - Ali, ela apontou com o dedo.
 - Onde? Perguntei.
-Ali, atrás do tampo antigo da pia, guria.

Confesso que me manter em pé era quase hercúleo, quem me conhece sabe o quanto costumo ser lenta pela manhã e ser acordada de supetão me deixa ainda mais perdida em tempo/hora/lugar. Fiquei ali procurando o alvo de minha bravura e heroísmo matutino.

Enxerguei umas penas e disse:

 - Ele já voou.
Minha mãe se defendeu diante da minha incredulidade:
 – Não, não...olha direito guria!

Foi então que afastei o tampo da pia e lá estava meu amigo. Não sei de qual espécie o mesmo era. Não sou cachorróloga, gatóloga e muito menos ornitóloga. Hoje já aprendi que cachorros não tem marca e sim raça e nutro por estes bichinhos grande simpatia, fora isso, minha experiência com bichos consiste em alguns pintinhos amarelinhos que cabiam em minha mão na infância e que não sobreviveram por muito tempo para contar história.

Mas voltemos ao nosso amiguinho pássaro. Ele ficou me olhando. Havia indícios de que ele estava ali há um bom tempo, pois já havia trilhado uma parte de seu espaço com excrementos. Ele me olhou com aquela carinha de visita não convidada e que ainda faz “caca”. Eu o olhei com preocupação. Estaria ferido? Agora que parecia estar livre, com o tampão da pia que o prendia removido, por que não voava? Nos olhamos com a ternura inconsciente que emana da surpresa de encontros não programados.

De repente fiquei esperta e um sentimento de veterinária idealista encheu meu coração. Minha mãe falou:

- Vou pegar uns farelos de milho para ele.
Acrescentei:
- Traga água, ele deve estar com sede.

Assim que os suprimentos chegaram da cozinha para a varanda e eu fui me aproximando, o mesmo alçou voo pela mesma janelinha que havia adentrado. Não estava ferido, com fome ou com sede. Seu anseio era por liberdade. Não olhou para trás, não me disse nada em “passarinhês”. Apenas bateu asas e voou.

Não era preciso dizer nada. Em suas ações ele disse tudo. Lembrei-me do que o Poeta Manoel de Barros (exímio poeta das coisas da natureza) anunciou:

Quem anda no trilho é trem de ferro, sou água que corre entre as pedras: liberdade caça jeito.”

Talvez minha terna tentativa de lhe aplacar a sede e fome, seria seu cativeiro. Sua natureza era o voo, os céus, a liberdade, as nuvens, o calor do Sol.

Quanto a mim: deixei o tampo removido. Deixei os farelos, deixei a água. Quem sabe ele volte para uma visita furtiva. Quem sabe possa olhá-lo de longe. Talvez um dia me permita um toque, caso nossos breves olhares desta manhã se transformem em uma futura amizade cúmplice.

Lembrei então de Rubem Alves que diz:
“O amor é um pássaro pousado no dedo”.

No dedo, na sacada, no ombro, como no caso dos piratas, bom mesmo é quando o amor vem pousar dentro da gente.

Lembro, por último, do fato de que até podem cortar nossas asas, mas jamais poderão pôr fim ao nosso impulso de voar.

Acredito que o homem tem dentro de si asas. Asas para amar, asas para buscar o transcendente, o divino. Alguns acidentes de percurso podem interromper a jornada. As asas podem ser brutalmente arrancadas, mas a essência do que somos nem farelos de milho, nem água e muito menos ausências de asas pode roubar.

“E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma”
Jesus Cristo – [Evangelho de Mateus]
Reações:

2 comentários:

  1. Muito Bom , logo de manhã ler algo assim: simples, direto e com profundidade!Obrigada. :)

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  2. Oi!! Fiquei encantada com o blog de vocês! Que Deus continue as inspirando. Bjs

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