sexta-feira, fevereiro 24, 2012

Inúmeros Rabiscos e Rascunhos de Girassóis

Cursava a quinta série e uma das aulas que eu mais gostava era da aula de Artes.
Uma hora antes da aula começar, já ficava inquieta:
Separava cadernos, canetas e apontador.

Confesso que a aula anterior parecia não existir.
Não sei onde nasceu essa paixão por traços e cores, fato é que não sobreviveu muito tempo.
Bem, vamos à história!

Era quarta-feira e o dia estava bonito lá fora.

A professora chegou.

Não era a mesma do ano anterior, era outra.
Essa era feia, chata e ranzinza.
As pessoas falam muito em ‘beleza interior’, pois bem, essa tinha um interior muito, muito feio.

Professora de Artes tem que ter poesia, tem que ter canção, tem que saber falar, mas essa não sabia nada disso! Essa tinha palavras de aço e feria a todos sem ao menos se importar!

Naquele dia ela entrou toda agitada e, desengonçada, tropeçou na cadeira antes de começar a falar.
Falou coisas que ninguém entendia e eu estava inteira agonia, por passar o tempo e não poder desenhar.

Tirou da pasta desenhos.
Desenhos gigantes!
Colocou-os sobre a lousa e nos informou:
-Estes são os Girassóis de Van Gogh, quero que cada um de vocês desenhe um quadro parecido com esse!

Credo! Teria mesmo de desenhar aquilo?
Era tão... tão... feio!

-Não sei como esses quadros fazem sucesso! Essas cores são muito fortes e quase todas pintadas ‘fora da linha’. Humpf! _pensei .

Mas a maneira com que a professora se referia ao quadro era tão entusiasta que achei que ele deveria ter alguma beleza escondida (bem escondida), coisa que só professor de Arte consegue ver!

Nosso trabalho era reproduzir aquela obra da maneira mais bonita possível (como se fosse possível tamanha façanha!).

Pois bem, se ela queria os girassóis, eu teria que fazê-los!

Tentei desenhar uma, duas, três vezes e... nada.
Queria deixar a proporção das flores similares as do quadro original e, por isso, pedi para levar o desenho pra casa para, depois, termina- lo.

Ela deixou.
Aliás, pediu para que todos fizessem o mesmo e disse que, na semana seguinte, ela daria nota para eles.

Foi ai que meu relacionamento com aquele quadro começou.

Percebi os detalhes de cada girassol, acho que foram pintados em um daqueles dias em que faz um frio de gelar os ossos mas que tem sol. Sol que ilumina sem aquecer.

As cores eram cores de outono e seus traços
eram fortes, como se feitos por uma alma angustiada.

Tentando desenhar joguei inúmeros desenhos no lixo.
Inúmeros rascunhos e rabiscos de Girassóis.

Nenhum ficava da forma que eu queria.
Nenhum ficava bom.
Nenhum!

Depois de muito tempo consegui desenhar o quadro.

É claro que não ficou perfeito, mas o tamanho entre as pétalas ficaram ‘proporcionais’.

Guardei o desenho e não via a hora de entregá-lo.

Era a 'minha' arte.
Eram os 'meus' Girassóis!
Só eu sabia o quanto foi difícil desenha-los.

Alguns da minha sala tiraram seus desenhos com pouco caso;
alguns amassados, outros ainda não terminados.

Entreguei.

Coloquei na mesa da professora e voltei, só para olhar para ele pela ultima vez.
Havia passado tanto tempo comigo que saberia descrevê-los em detalhes, cada pétala, cada contorno e cada cor usada.

Agora era só esperar pela nota.

Bem, você há de concordar comigo que, quando a gente é criança notas são muito importantes.
Todo mundo sabe disso (menos os professores, é claro!).

Passou uma semana e estava ansiosa para ter meu desenho de volta.

A professora entrou, pegou sua pasta e começou a entregar os desenhos e suas respectivas notas.
Alguns de meus colegas de classe já comemoravam a nota:
'A' era a nota principal.

-Eu nem desenhei direito! Fiz de qualquer jeito e tirei A!_ alguns diziam, rindo-se da situação.

É claro que não ia contar para eles o quanto havia me esforçado para que meus girassóis ficassem parecidos com ‘girassóis’, muito menos quanto tempo fiquei com eles para aprender suas cores.

-Lucian...

Era minha vez!

Levantei e a vontade de ter aquele desenho comigo era tão grande que nem me lembro do trajeto que fiz até chegar na mesa da professora.

A nota estava em vermelho na parte superior da folha.

C.

Tirei a menor nota da classe.
Ninguém tirava nota menor que C nas aulas de Arte.
Ninguém!

-Professora, C?_não pude deixar de perguntar.
-Sim, era para você fazer o desenho e não pedir ajuda de alguém!

Não respondi.
As palavras sumiram.

Durante o resto do ano, todos os desenhos que ela pedia, fazia questão de fazer mal feito.

Minhas notas melhoraram.

Hoje não tenho mais aula de Artes, mas ainda convivo com meus inúmeros rascunhos e rabiscos de Girassóis.

Aprendi que as reprovas não acontecem apenas nas escola (a vida já me reprovou em quase tudo que tentei). Penso até que era exatamente essa a grande tristeza de Van Gogh: a tristeza de ser reprovado nas coisas que mais amava fazer.

Bem, o tempo passou e minha vida virou um grande depósito de rabiscos e, quase todos, com a nota:

C.

Agora aquele quadro triste passou a fazer sentido pra mim.


Nota de Observação: Encontrei a tão falada beleza dos girassóis.
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Doze Girassóis numa jarra são considerados uma das melhores e mais famosas obras do pintor holandês Vincent van Gogh.

Após a sua chegada a
o sul de França, estabelecendo-se em Arles, Van Gogh "descobre" o sentido da cor e da luz, e é neste período que a obra sua sofre a chamada "explosão da cor". Doze Girassóis numa Jarra pode ser considerado o culminar de todo este efeito em sua obra.

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Um amigo meu, Diego Lima, leu esse texto e me presenteou com um desenho que gostaria de dividir com vocês:





Abraços,
Lu Poulain (Luciana Leitão)
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