segunda-feira, março 25, 2013

Uma história sobre sexualidade e a quebra de maldições


Mirela* tinha uns vinte e poucos anos quando se converteu a Cristo e passou a frequentar uma denominação evangélica. Fez logo vários amigos e passou a participar das reuniões e atividades do ministério de jovens. Prontamente entrou para a escola dominical a fim de aprender mais sobre a Bíblia, pois tinha fome e sede de conhecer a Deus. Passado algum tempo, Mirela se interessou em participar do grupo de oração dos jovens. Nessa época ela começou a ter alguns sonhos de conotação espiritual e foi incentivada a compartilhá-los com o grupo de intercessão da igreja local. Percebendo que Mirela tinha um dom, os líderes a convidaram para participar da classe de intercessão na escola bíblica dominical, com estudos voltados para assuntos de oração, dons, guerra espiritual e coisas relacionadas a esses temas. Ela topou, estava bastante ansiosa por aprender mais, quem sabe assim ela passaria a ter melhor compreensão dos sonhos que tinha. Como ainda era um tanto nova na fé, sabia também que as disciplinas espirituais, como orar, meditar na Bíblia e jejuar a ajudariam bastante. E assim foi por um bom tempo. O grupo fazia reuniões de estudos, de oração, campanhas de jejum, atividades das quais ela participava alegremente.

A liderança do grupo de intercessão mudou depois de alguns anos e alguns novos procedimentos foram adotados pelos novos líderes. Era preciso que todos os membros que ainda não tinham passado pela “libertação” o fizessem. Mirela agendou o aconselhamento com o pastor da igreja local e recebeu um documento com um extenso questionário, o qual deveria preencher e levar no dia agendado. Ao ler o conteúdo, Mirela criou uma expectativa a respeito da libertação. O tal questionário levantava informações sobre práticas espirituais de gerações anteriores da família, assim era possível identificar problemas como alcoolismo, uso de outras drogas e envolvimento com religiões consideradas heréticas pelo cristianismo. Também eram levantadas informações sobre o comportamento da pessoa em questão, candidata a libertação, incluindo, principalmente, questões referentes a pecado: mentiras, práticas ilícitas e, obviamente, comportamento sexual. E Mirela tremeu quando chegou a essa parte.

Tremeu porque sabia, desde a infância, que era bissexual. Nunca o quis ser, mas era. E tinha vergonha, muita vergonha disso. Era assunto proibido até para si mesma. Cresceu com a forte convicção de que Deus a tinha criado por algum motivo e nada além de um relacionamento hétero correspondia com o ideal de Deus para a sexualidade humana. Ninguém lhe ensinara isso, ela simplesmente sabia. Mas não tivera coragem jamais de conversar com qualquer pessoa a esse respeito. Na verdade, o que Mirela fez até então foi colocar seu “lado gay” no armário e deixá-lo lá, num escuro de portas bem trancadas.

Tivera oportunidades antes de sua conversão, mas fugira de todas elas certa de que não queria aquilo, nunca desejara aquilo, mas não sabia como se livrar de tais sentimentos. Encarando aquelas questões e diante da possibilidade de mentir, Mirela sofreu. Por uns dias foi tomada por um medo cruel de ser rejeitada pelo pastor e por qualquer outra pessoa que poderia tomar conhecimento dessa informação, deixou aquelas questões por último até que lhe veio à mente a ideia de que, se confessasse sua condição talvez o problema fosse resolvido, afinal de contas aquilo era uma libertação! Tomou coragem, preencheu o formulário e foi para o aconselhamento. O problema foi atenuado pela falta de prática, afinal, seu pecado não era “tão grande” assim. Era questão de oração e libertação – e assim foram quebradas maldições causadas pelo comportamento inadequado das gerações anteriores e pecados como o alcoolismo, idolatria e algumas outras coisas. Expulsos todos os males, Mirela acreditou sinceramente numa vida nova. Sim, muita coisa deveria mudar, pois haveria cura para seus problemas com pecado. E não correria o risco de se tornar alcoólatra, por exemplo, visto que essa maldição também foi quebrada.

Por um período pós-libertação, Mirela sentiu-se realmente bem, até que as tentações lhe bateram à porta. Não cedeu, e na verdade nunca cedia, mas o que sentia em sua alma não correspondia com a nova vida prometida após passar pela libertação. E se culpava ainda mais do que antes por aquilo.

Tornou-se escrava da culpa e procurava dedicar-se ainda mais a jejuns e orações para que sua condição fosse mudada por Deus. Participou então de um novo programa da igreja local e fez cura interior.

Primeiro fez um curso que lhe ajudou a resgatar sua identidade como filha de Deus, redimida pela obra de Cristo na cruz. Então, algum tempo depois, participou de uma ministração mais específica de cura interior. Mirela confessou tudo, chorou e sofreu porque não queria sentir-se atraída fisicamente por outras mulheres. Nunca quisera. E queria descobrir o motivo disso, na esperança de que, de posse dessa informação, encontraria cura e experimentaria uma transformação libertadora para si. Nada disso resolveu seu problema, tampouco sua culpa.

Certo dia, estava meditando na Palavra quando as palavras de Jesus na cruz ecoavam em sua mente: “Está consumado!” (João 19:30). Lembrou-se das palavras do apóstolo Paulo: “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro”, uma referência para Deuteronômio 21:23 “qualquer que for pendurado no madeiro está debaixo da maldição de Deus”. Todas essas palavras reverberavam agitando a alma de Mirela. “Está consumado!”, “Ele se fez maldito por mim!” repetia para si enquanto ondas de esperança e alegria começavam a tomar conta de sua alma, assim como a luz do sol entra por uma fresta na janela e ilumina o ambiente antes escuro. Deixou de crer na quebra de maldições desde então.

O tempo passou e pouca coisa mudou para Mirela sobre sua condição bissexual. Ela conta que a única coisa que realmente mudou foi seu amadurecimento e transparência no relacionamento com Deus.

Passou a encarar sua realidade, como diria o Nelson Rodrigues, passou a ver a vida como ela é. Mas seu sofrimento foi amenizado por uma verdade muito mais profunda: não precisava mais se desgastar em quebras de maldições, pois Cristo já tinha se tornado maldito em seu lugar. Começou, desde então, a entender melhor palavras como justificação, graça e misericórdia. Hoje em dia Mirela continua em busca de estar em paz consigo mesma e tem encarado seu lado escuro à luz do Evangelho da graça.

De vez em quando, em suas fraquezas, Mirela ouve um eco vindo da cruz que lhe sussurra “Está consumado!”, redimida, Mirela confia na graça de Deus, e dorme em paz mais uma vez.


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* Mirela é um nome fictício. Essa é uma das muitas histórias reais que eu queria compartilhar.

Deixemos que a graça brilhe,

#2 Andréa Cerqueira

(@acspira)
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