segunda-feira, janeiro 27, 2014

Solitude


Por Isabelle Ludovico

Um sinal de maturidade diz respeito à capacidade de transformar a solidão em solitude. No entanto, desenvolvemos várias artimanhas para fugir desse encontro conosco, pois achamos que precisamos estar fazendo alguma coisa para merecer algum tipo de reconhecimento. Assim, somos movidos pelo desejo de agradar e procuramos nos tornar aquilo que as pessoas esperam de nós. Neste processo, vamos nos distanciando do nosso verdadeiro "eu" e construímos uma identidade fictícia à qual nos agarramos para garantir nosso lugar no mundo. Parar seria defrontar-nos com esta máscara que esconde um grande vazio interior, o que desperta em nós um verdadeiro pânico.

Num artigo muito interessante intitulado “A capacidade de estar só”, o famoso psicanalista Winnicott pontua que esta depende da experiência de estar só na presença de alguém que me ama como souÉ muito raro encontrar este tipo de amor nos nossos relacionamentos. Por mais que nossas mães nos tenham amado, elas sempre tiveram alguma expectativa e carência que tentaram preencher através de nós. Ou seja, é praticamente apenas em Deus que podemos encontrar este amor que não exige nada de nós. Na solidão, o desamparo gerado por nosso vazio interior nos leva a clamar por este amor que lança fora o medo da rejeição e nos dá a coragem de descobrir e assumir quem somos. Verdade sem amor é devastador, mas verdade com amor é libertador.

Estarmos sós diante do “Eu sou” nos permite ser nós mesmos, nos ajuda a ir nos libertando do falso self que construímos para sermos amados. A contemplação é este estado de inteireza na presença de Deus. Não precisamos fazer nada, dizer nada, pedir nada. Basta sermos sinceros, sem artifícios, sem manipulação, desarmados e maltrapilhos, mas também reverentes e gratos. O pânico vem do sentimento de não merecer este amor. E não merecemos mesmo. Como diz Philip Yancey, "não há nada que possamos fazer para Deus nos amar mais e nada que tenhamos feito que faça Deus nos amar menos." Nossa relação não se sustenta no nosso desempenho, mas na sua escolha de nos amar, apesar de nós, a ponto de morrer na cruz por nós.

Deus já provou o seu amor, por isto podemos confiar nEle. Na solidão, descobrimos nossa fragilidade e carência, mas também a consistência do seu amor. A nossa sombra é desmascarada, mas também a luz que herdamos dEle vem à tona. “Contemplando Deus... somos transformados à sua imagem...” ou seja, vamos nos apaixonando por Ele e desejando nos tornar cada vez mais parecidos com Ele. O Senhor nos inspira, nos atrai e mobiliza o que há de melhor em nós, de modo que nos aproximemos cada vez mais da obra-prima única que Ele projetou ao nos criar.

Neste processo, vamos nos despojando do falso self e descobrindo nossa verdadeira identidade. Como descreve muito bem Fernando Pessoa num poema citado por Rubem Alves:

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Procuro despir-me do que aprendi.
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
e raspar a tinta com que me pintaram os sentidos.
Desencaixotar minhas emoções verdadeiras.
Desembrulhar-me e ser eu...
Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
isso exige um estudo profundo,
uma aprendizagem de desaprender...

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Assim, na solidão, podemos nos reconciliar com nosso eu verdadeiro. Ele carrega as marcas do pecado, mas são elas que nos permitem experimentar a graça de Deus. Elas nos ajudam a abrir mão do desejo onipotente de perfeição, do orgulho de querer ser “como Deus”. Elas nos mantêm humildes e conscientes das nossas limitações, mas também nos abrem para o poder restaurador de Deus.

A solidão não é uma inimiga, mas um espelho que nos revela nossa verdade interior. Somente aqueles que se reconciliaram consigo podem construir uma relação madura com alguém. Pois eles não precisam mais usar o outro para fugir de si ou para se valorizar. Pelo contrário, eles sabem respeitar a distância que possibilita a cada um ver o outro inteiro.




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Isabelle Ludovico da Silva é psicóloga clínica, com especialização em Terapia Familiar Sistêmica. Casada com o pastor Osmar Ludovico. 
Reações:

Um comentário:

  1. Ja recebestes os ensinamentos p plainar rumo ao seu "eu" interior.Que Deus possa te guiar nesse voo meu filho querido.ESTAREI SEMPRE ORANDO POR VC..DO FUNDO DO MEU CORAÇÃO...EM NOME DE JESUS...GOODBYE..TE AMO MÔ...SEMPRE

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