terça-feira, setembro 20, 2011

Indignação seletiva

Por Agenor Bevilacqua Sobrinho(*)
Ser implacável com as malfeitorias alheias.
Caçar iniquidades... dos outros.
Ficar boquiaberto devido aos atos escusos de estranhos.
Mostrar indignação retumbante quando o inimigo tergiversa.
Estrebuchar porque o opositor desviou recursos públicos.
Repudiar negociatas de partidos fora de nossa aliança.
Criticar aqueles que “se pautam pela mídia”.
Ter aversão aos que, de longe, exploram a boa fé.
Exibir repulsa republicana aos malversadores de outras facções.

E se em nossa casa brotarem tais absurdos, nossa implacabilidade será reduzida?
Deixaremos de caçar iniquidades?
Ao invés de boquiabertos, ficaremos indiferentes?
A indignação dará lugar à compreensão quando nossos amigos tergiversarem?
Abandonaremos o estrebucho porque o desvio de recursos públicos foi realizado por um compadre?
Evitaremos a todo custo repudiar negociatas ocorridas por iniciativa de nossos aliados?
Criticaremos a mídia por nos perseguir e aos companheiros por “se pautarem por ela”?
Se um dos nossos explorar a boa fé, a aversão desaparecerá?
As malversações realizadas pelos próximos não serão repulsivas?

Com este repertório, companheiros(as), pareceremos cada vez mais com aquilo que desprezamos quando não nos incluirmos nas mesmas severidades que julgamos ser imperativas aos demais.
Mas daí aquilo que julgamos ser não passará de escárnio.
Provocaremos risos ao nos transformar em anedotas.
De tão semelhantes, nossas feições serão reflexo daquilo que nos enoja.
Se a indignação for seletiva,
Descobriremos que não passamos de hipócritas.

Agenor Bevilacqua Sobrinho(*) é dramaturgo e professor de Filosofia e de Sociologia.
Reações:

Um comentário:

  1. Excelenteeeeeeeee texto!

    Que DEUS nos livre da indignação seletiva, pois neste mundo caído é cada vez mais fácil que um dos nossos se envolvam com as perversidades do mal. Afinal, o mundo jaz no maligno.


    Grande beijO*

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