sexta-feira, setembro 28, 2012

Viver pelo Evangelho da Graça


Dirigi recentemente, em Virgínia Beach, um retiro silencioso de três dias para senhoras. Na abertura do retiro encontrei-me brevemente com cada mulher e pedi que escrevesse numa folha de papel a graça que ela mais gostaria de receber do Senhor. Uma mulher casada da Carolina do Norte, de cerca de quarenta anos, com um brilhante histórico de oração e de serviço aos outros, disse-me que o que ela mais queria do que qualquer outra coisa era experimentar uma vez que fosse o amor de Deus. Assegurei-lhe que me juntaria a ela nessa oração.

Na manhã seguinte, essa mulher (que chamarei Winky) acordou antes do amanhecer e foi passear na praia, que ficava a menos de cinqüenta metros da casa. Caminhando descalça ao longo da praia, as águas geladas do Atlântico lambendo seus pés e tornozelos, ela viu, uns cem metros adiante, um adolescente andando em sua direção, seguido por uma mulher quinze metros atrás. Em menos de um minuto o rapaz passou à esquerda dela, mas a mulher fez uma abrupta curva de noventa graus, andou na direção de Winky, abraçou-a calorosamente, beijou-a no rosto, sussurrou "eu te amo" e seguiu seu caminho. Winky nunca tinha visto a mulher antes. Ela vagueou ao longo da praia por mais uma hora antes de voltar para a casa e bater à minha porta. Quando abri, ela estava sorrindo.
 
Nossa oração foi respondida — ela disse simplesmente.
 
Em seu livro The magnificent defeat [A esplêndida derrota] Frederick Buechner escreve: "Pois o que precisamos saber, é claro, não é apenas que Deus existe, não apenas que além do brilho metálico das estrelas há uma inteligência cósmica de alguma espécie que mantém o espetáculo em andamento, mas que há um Deus aqui no centro de nossa vida cotidiana, um Deus que pode não estar escrevendo mensagens a respeito de si mesmo nas estrelas, mas está de um modo ou de outro tentando passar mensagens pela barragem da nossa cegueira, enquanto nos movemos aqui embaixo mergulhados até os joelhos nos fragrantes estrumes, mistério e maravilha do mundo. Não é prova objetiva da existência de Deus o fato de que não queremos coisa alguma além de experimentar a presença de Deus. Esse é o milagre que na verdade buscamos, e é também, creio, o milagre que na verdade obtemos".
 
Viver pelo evangelho da graça nos conduz ao que Teilhard de Chardin chama de "a redondeza divina" — um universo repleto de Deus e permeado de Cristo, um mundo carregado com a grandeza de Deus. De que forma vivemos na presença do Deus vivo? Em assombro, maravilhados pelos rastros de Deus a nosso redor.
 
A graça abunda em filmes, livros, romances e música contemporâneos. Se Deus não está no redemoinho, talvez esteja num filme de Woody Allen ou num show de Bruce Springsteen. A maior parte das pessoas compreende representações visuais e símbolos com mais facilidade do que a doutrina e o dogma. Certo teólogo opinou que o álbum Tunnel of Love, de Springsteen, no qual ele canta simbolicamente a respeito do pecado, da morte, do desespero e da redenção, é mais importante para os católicos do que a última visita do papa, que falou de moralidade apenas com base em proposições doutrinárias. Poetas foram sempre mais importantes e influentes que teólogos e bispos.

(Brennan Manning - em O Evangelho Maltrapilho - cap. 5)
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