quarta-feira, novembro 21, 2012

Espiritualidade: para além do chão


Num tempo onde as pessoas costumam mirar o chão, quero enxergar as estrelas


Há dias em que perdemos o chamado "foco" da existência. São dias de luto no olhar, sombras na relação com a história. Porém, esses dias reservam surpresas que encontram os que ainda sonham. Tenho um compromisso pessoal com a excelência, um desejo cada vez mais abrangente de mirar horizontes desafiadores. Costumo chamar esse desejo de "convite às possibilidades", ou seja, dar voz ao grito pelo infinito que me habita.


Espiritualidade é um chamado às transformações. Esse chamado produz as mais íntimas e profundas revoluções que nosso ser pode esperar. É um chamado que ecoa, ao mesmo tempo, de dentro e de fora de nós mesmos. Um despertar da essência à existência, da casualidade à causalidade. É um vislumbre da vida de Deus em nossa humanidade, um salmo escrito na vida e na relação espaço/tempo.
A espiritualidade é a lente através da qual olho para cima e miro estrelas:


Quero enxergar as estrelas. Mirar o amanhã que flui do abraço de Deus. Espiritualidade é esse "querer o que Deus quer que eu queira", esse entendimento de que preciso consagrar a Deus o meu querer, converter os meus anseios em sonhos para a construção de uma história mais humanizada e humanizadora; abençoada e abençoadora; realizada e realizadora.


Quero enxergar as estrelas. Elevar minha alma além de toda a mediocridade que o mundo tenta me fazer abraçar. Direcionar meus ouvidos para a captação da melodia da graça, dos sons da generosidade divina. Guiar meus olhos para os alvos estabelecidos por Cristo para minha saga. Num tempo onde se conspira contra a intimidade, tempo de indiferença, quero enxergar nos outros a bênção da convivência, caminhos para o crescimento como sociedade, irmãos e amigos.


Quero enxergar as estrelas. Ainda que a escuridão das noites esteja gritando que a vida acabou, verei a beleza de um céu estrelado. Ainda que o deserto da vida esteja empoeirando minhas esperanças, levantarei os olhos e verei a mão que me guia, a mão do Eterno. Ainda que os predadores da alma estejam em "temporada de caça", voarei como águia na imensidão azul e perfeita do céu - lugar dos que amam a Deus.


Espiritualidade é caminho de transcendência porque nos eleva para o encontro das transformações, o abraço que muda o pranto em dança. Estar nesse caminho é acreditar em encontros de cura e bálsamo. Espiritualidade que transforma religiosidade vazia em transcendência absoluta; transforma as catedrais do medo em imponentes memoriais às certezas de que tudo veleja para o bem. Espiritualidade aprendida diretamente do Consolador, aquele que ensina com maestria a mágica arte de abraçar.


Minha busca é por uma espiritualidade que lapide meu interior vasculhando com esmero cada esquina que há em mim (Sl.139). Sonho com uma espiritualidade que restaure em meu ser as primeiras impressões postas por Deus ao me criar. Anseio, profundamente mudanças que me moldem no projeto original de Deus para mim e não nesse ser imperfeito no qual me tornei. Não tenho vergonha de admitir: sou imperfeito, mas busco o caminho da revolução pessoal (Mt.5.48).


Não quero ser um santo que fique preso às molduras da religiosidade tradicionalista ou legalista, quero ser um santo na vida, que transpira, chora, erra, peca, perde, sofre, mas é santo porque não desiste de tentar, porque não desiste de acreditar que a vida cristã não é coisa para os heróis, é coisa para nós (eu, você). Quero ser santo porque Deus é santo, e estou me esforçando para amá-lo (Lv.11.44). Espiritualidade é uma fantástica possibilidade existencial além da fantasia humana, além da dúvida filosófica, além da veloz modernidade e tecnologia, além dos nossos sonhos. É o milagre do finito tocando a eternidade.


Não quero ser um pensador de trivialidades, balbuciando dogmas ou fazendo bolhas teológicas sem nexo. Quero pensar as implicações da cruz nas fúrias do meu cotidiano brutal. Pensar verdades edificantes e transformadoras. Verdades que revelem Deus e sua santa Palavra. Verdades que contribuam para o crescimento e amadurecimento dessa geração que vive sem viver. Quero a voz sofrida, mas adocicada dos profetas (Ez.3.3), o prazer de me entregar como metáfora profética viva e vivificante. Quero lamentar, se preciso for, mas também ver minha geração edificando um altar ao Senhor.


Não quero ser um membro de igreja, quero ser igreja! Não quero ficar à margem da estrada vendo a caminhada cristã rumar para o Eterno, quero caminhar junto, servir de amparo aos meus irmãos enfraquecidos pelas turbulências (Lc.23.26), olhar para a frente e enxergar o horizonte estrelado que espera os que "se gastam e se deixam gastar pelo evangelho"(II Co.12.15). Quero querer.


Em tudo isso, na verdade, se esconde a espiritualidade - nessa caverna escura que existe em cada um de nós. Espiritualidade não é fruto da mentalidade mercadológica, é uma conquista diária, uma realização, um ideal a ser perseguido em nossas batalhas mais incríveis. É o cajado que nos consola, o farol que ilumina a escura noite da vida, a atração que nos conduz ao abraço eterno de Deus (Jr.31.3), como disse Agostinho, "Tu nos criaste para Ti mesmo, e nossos corações ficam desassossegados enquanto não descansarem em Ti".


Quero viver. Viver tão intensamente que possa marcar meu tempo histórico, deixar uma poesia existencial escrita, uma arte pintada nas telas do cotidiano, mensagem para a posteridade, um sinal de que "a graça de Deus ainda se aperfeiçoa em nossas fraquezas" (II Co.12.9).


Até mais...


Alan Brizotti
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