• Apenas considerações despretenciosas - Carla Cristina

  • O menino poeta - Carlos Drummond de Andrade

  • Protesto é a forma mais legítima de lutar contra a injustiça - Maquito Pira

Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, abril 03, 2014

O ópio do homem de lata ( Uma nova conversa de inverno)






De repente uma conversa surge em meio ao sono. Dentro de um quarto escuro, em uma casa comum da cidade, um homem de lata recebe uma visita inesperada, e um diálogo desabrocha de ambos olhares que se focaram, ali no meio do tempo: 


Homem de lata : Sabe querido, estive pensando e cheguei a conclusão que preciso daquela água  que você prometeu dar aquela mulher na beira do poço, não quero mais sentir sede sabendo que você pode me saciar.  Preciso dela para limpar meu coração também, acho que tem muita sujeira cá dentro, algumas coisas  congelaram  por falta de uso e como o tempo é de frio, não encontrei outro lugar para me esquentar.

Está tão frio lá fora, que foi inevitável esfriar aqui dentro também. Infelizmente eu permiti o inverno entrar pela janela (deixei ela aberta por muito tempo). Eu sei também que dentro do meu coração só você sabe pisar, então queria te pedir outro favor, será que seria demais pedir para aquecê-lo também? Porque eu sei que na hora que você aquecer meu coração muita coisa vai voltar a funcionar.
Parece que a caixa d'água estragou, não sai mais água. Não escorre pelos olhos. Só ouço estralos. 

O jardineiro: Meu querido amigo, sabes o que estás a me pedir? Suponho que saiba que a partir de então começará a sangrar porque vou aquecer seu coração, mas sugiro que espere mudar a estação. O inverno também tem sua função. Espere que o verão já vem. Não posso mudar as estações apenas para curar você. Mas, posso te ensinar a se aquecer.
Está  disposto a doer novamente, perceber  dores, se comover com o amor, se deixar afetar? Eu acompanhei você por todos os caminhos que te trouxeram até aqui, e estou feliz que mesmo assim você ainda queira  sangrar.

Corajoso, hein?

Homem de lata: Sim, quero. Quero sangrar novamente, quero que me aqueça, quero que amoleça meu frio coração, estou cansado de não ver as lágrimas rolarem, estou cansado de ver tudo acontecer  sem ao menos ter outra reação. Estou me sentindo um homem de lata, daquele desenho, sabe?

O Jardineiro: Tava com saudades das nossas conversas, você ficou muito tempo sem me falar com palavras. Te entendo, homem de lata, eu entendo você.
Homem de lata: Nosso amor realmente é forte, ultrapassou os limites da vida, da lógica, da razão e da morte. Veja só querido eu praticamente morto e sem vida ainda sim chamei por você e você me ouviu.   
Me dê vida também?  Quero viver  !

O Jardineiro: Minha vida é sua, não entendeu ainda, que meu amor em você e por você é mais forte? Jamais estive longe, estava ao seu lado, mas não podias me perceber. 

O homem acordou assustado em sua cama, e percebeu que embora não fosse aquele ser do seu sonho, se identificou muito a ponto de pensar que era mesmo um androide.
Uma lágrima então escorre dos seus olhos, e com sorriso entendeu que seu pedido foi realizado. Seu coração foi levemente aquecido,  o resto era questão de tempo. Acordou pensando no sonho que teve, de tão real, sentiu calor. A partir de então, tudo passaria a ser diferente por causa daquele breve, eterno momento.
Se deu conta que, era impossível ter aquele sonho, de forma tão precisa.

Mas sonhou. E agradeceu. 
Aquele ser nunca mais foi o mesmo. 

Ele passou a ser humano.


Si Caetano via Diário de uma Lagarta

sexta-feira, fevereiro 14, 2014

A janela




Tem coisas que nos acontecem na infância que mudam completamente o modo de vermos as coisas. E as pessoas.

Eu morava numa rua de nome difícil, que ficava nas bordas da cidade.

Meu vizinho da esquerda era o senhor Joaquim, um velho barbudo que amava as árvores, até fazia uma coleção delas no quintal da sua casa. 

E do lado direito morava a Maria, uma menina com uns três anos a mais do que eu.
Eu tinha seis quando a vi pela primeira vez.

Maria tinha um jeito de menina doce, doce bem doce, do tipo mel ou laranja lima, sabe?
Não gostei dela desde a primeira vez que a vi com um vestido cheinho de florzinhas e cabelos trançados. Gente muito doce parece que nasceu errado. 

- 'Créd cruis, por mil potes de açucar União!' num quero uma amiga assim não! _pensei.

É lógico que eu não quis manter contato com a menina, até porque dizem que a gente acaba se parecendo com quem conviv,e e doce sempre me fez mal. Morro de medo da 
tal diabetes, doença que minha tia Firmina têm desde muito tempo. Iac!

Tia Firmina tem mais anos do que a minha mãe, mas não casou e nem teve filhos. Se você pensa que ela é triste,  ahahaha você se enganou! Firmina é minha tia mais legal! E mais bonita.  E adora viagens e vestidos longos. Na minha opinião, ela é a mulher mais legal  do mundo todo! Depois da minha mãe, é claro.
Vai entender que critérios os homens usam pra escolher casamentos, né!?

Bem, da minha janela, eu sempre via a menina Maria a cortar flores. 

Três vezes por semana, ela vinha com tesoura e um cesto bem grandão.

Na minha opinião, de boazinha ela nada tinha! Quem tem coração, não mata florzinha, nem botão.
Todas as vezes, que a Maria saia para suas maldades de canteiro, vinha um menino ranhento a gritar por atenção. Era Joazito, seu irmão. 

João era um menino que gostava muito de gritar e de chorar. Duvido que tinha tempo pra fazer outras coisas! O barulho era sua maior ocupação.

Bem, a menina Maria era realmente muito má: matava flores e fazia qualquer coisa que - não imaginava o quê! - parava o choro do irmão.

Outro dia, a minha tia Firmina foi viajar.
Como a tia tem cama grande e muitos travesseiros, decidi que o melhor a fazer era  ir dormir lá. Vai que de noite algum ladrão entrasse e a roubasse, né?

-Te juro, tia. Não vou mexer em nada. Nem precisa trancar._foi o que eu prometi quando vi tia Firmina tirando as chaves do quarto antes de sair.

Daí, a tia - inocente - deixou a porta sem fechar.

Quando a noite já era bem noite, fui de pijama e chinelo pra lá.
Que delícia de quarto!
Que delícia de cama!
E aquilo tudo era meu. Só meu!
Usei a abusei de tudo o que podia, usei até o perfume dela pra deitar!

Naquela noite, dormi cheirando flor...

Acordei com o sol ainda fininho, e antes de voltar para o quarto que era meu, decidi usar a janela da minha tia para ver o que tinha do outro lado da casa da Maria. Queria ver qual maldade a menina escolhia para castigar o irmão.

A janela da minha tia era bonita, tinha vidro transparente e cortina. E me deixar ver o que antes eu não via.

-Isto aqui é perfeito! _pensei!

Foi aí que minha interpretação sobre a Maria mudou.

Notei que a Maria tinha também uma família, além do irmão. 
Da janela da tia Firmina, dava pra ver um pedaço do quintal da menina. 

Lá tinha uma velha bem velha, parecendo bisavó. A velha estava numa cadeira que tinha rodas e que era - também - bem velha. Talvez as duas tivessem a mesma idade. Deveriam ter nascido em mil oitocentos e bolinhas. As duas!

Assim que Maria retornava com as flores no cesto, colocava-os no colo da velha e, depois, as duas faziam ramalhetes. Um mais bonito do que o outro. 
A velha parecia gostar de fazer.

Não foi preciso segurar muito tempo a curiosidade sobre o irmão: mais um pouco e logo apareceu o menino chorão.

Só que, antes eu não percebia o grande volume na frauda que o menino tinha.

-Vá trocar seu irmão, Maria. _acho que eu até ouvi a velha mandar na menina.
-Sim, senhora! _concordou sorrindo a Maria.

Logo o menino não mais chorou. Voltou com outra frauda, limpinha e com um lencinho 'cheirador'.

Agora, a menina que antes era a mais exibida, da janela da minha tia, virou anjo. E até asa tinha.

Olha só o que olhar por outra janela me fez aprender...


....
Texto: Luciana Leitão
Imagem: Google

sexta-feira, janeiro 03, 2014

Os varais



Quando era mais menina minha mãe me ensinou um grande segredo. Lembro das suas palavras como se estivessem sendo ditas hoje:

'Não esqueça, minha filha: apenas a beleza e as delicadezas devem ser vistas pelos que estão do outro lado do portão. Não se mostra o que é feio, o que é intimo e o que expõem o que temos de pior em nós e em nossa casa. Nós, mulheres, não queremos que as pessoas nos pensem em atos de vergonha, desleixo ou relaxo; menos ainda que façam conta dessas nossas intimidades corriqueiras, cotidianas...'

Depois desse dia, as coisas mudaram; Aprendi a expor apenas o que tinha de melhor e nada mais do que isso. Encontrei maneiras de esconder tudo o que deveria ser secreto aos olhos das pessoas que não eram do meu convívio: as más escolhas, as más combinações, as manchas do passado, os remendos e outras coisas intimas que poderiam escandalizar ou intimidar desconhecidos.

'A aparência é importante e demonstrar delicadezas e tratos é algo que, nós mulheres, devemos fazer sempre e muito bem' _ era o que dizia a minha mãe.

Esse foi um dos mais preciosos conselhos que recebi. Provavelmente, nem conseguiria um bom casamento sem ele. Afinal, quem se casaria com alguém que não sabe o modo correto de estender roupas em varais, não é?!
 
Beijos, Lu!


Texto: Luciana Leitão
Imagem: Google

quinta-feira, agosto 15, 2013

O moço e a sua dor

Há dores que nunca nos abandonam. Morrem a gente. Algumas, de tão agudas, se agarram à história e sobrevivem até mesmo a nossa partida.

Conheci um moço que carregava uma dor como essas no ombro. O nome dele eu não lembro, mas recordo que era doutor; não desses que usam branco, mas dos que usam terno e gravata, e recebem para fazer justiça.

Ele nem deve ter me notado no primeiro momento. Lembro perfeitamente dos seus olhos analisando os fios de plástico, os medicamentos e o espaço no quarto usado por mim e outra paciente.  Os olhos dele se agarram nos meus apenas nos últimos instantes em que fazia seu trabalho. Talvez porque tenha notado minha escuta.

-Como segue a visitação dos médicos? _perguntou o moço à enfermeira. 
-Desde o inicio da CPI, todos estão seguindo as regras, doutor._respondeu a moça.
O moço suspirou.
Paralisado das pernas, caminhou o quarto, mais uma vez, apenas com os olhos.

-Engraçado voltar a esse lugar. A vida faz coisas estranhas com a gente...

A enfermeira segurou os olhos sobre ele até que sua fala continuasse.

-Meu pai, há três anos morreu aqui, neste hospital; E agora me mandaram fiscalizar justo este lugar, cheio de roubos e de má gestão. Meu pai nem estava tão doente! Veio até aqui porque não tínhamos dinheiro para pagar um médico particular. Trabalhou a vida toda para me dar estudo e me fazer doutor. Morreu porque me amava e, porque me amava, aceitava sempre o segundo lugar. 

Os olhos dele se enchiam de um sentimento denso. Talvez fosse raiva. Não o julgaria se fosse esse o sentimento.

Também fiquei com raiva.

-O que houve com seu pai, doutor? _foi a pergunta ousada da enfermeira. 
-O hospital estava lotado. Os médicos não realizavam suas tarefas e a equipe de enfermagem era relapsa com seus deveres. Os corredores estavam lotados com pessoas nas macas e cadeirantes; não havia espaço nos quartos. Disseram que me pai se engasgou e não havia ninguém para o ajudar. Ninguém ouviu os gritos dos pacientes ao lado, pedindo ajuda. Percebi que quando o descaso acontece no coletivo, ninguém se sente culpado. Não há responsáveis e, apesar de haver morte, não existem assassinos.

Houve um silêncio oco. Aquela conversa não me subia ao coração, ficara como um peso no estômago.
É difícil ver gente sofrendo. Mais difícil ainda é ver homem de terno desaguando o pranto; e o luto.

-Quiça Deus tivesse olhado para as minhas circunstâncias e recompensado as boas ações minhas e do meu pai. Teria me livrado dessa dor, ou então me dado a dádiva das dores menores; não estas que me pesam chumbo e são mais infinitas que o oceano. _disse o moço como se confessasse seus pensamentos a um padre ou a qualquer outro líder religioso.

O quarto ficou ainda mais em silêncio, e a enfermeira nem se deu o trabalho de esboçar qualquer som ou explicação.

- Às vezes culpo a Deus por ter deixado tudo isso acontecer. _continuou o moço_ Tento não culpa-lo. Todos os dias eu tento, e me pesa a culpa por não conseguir...

Jamais esquecerei quando, naquele instante, seus olhos se agarram aos meus. Ele dissera seus pensamentos mais profundos e, agora, me olhava como quem pedisse respostas.
Apesar da conversa terminar sem ponto final, foi possível visualizar o moço carregando sua dor ao partir.
Nem mesmo seus sapatos finos conseguiram tornar seu caminhar mais leve.

...

Prece: Que quando me deparar com a dor que ela seja, ao menos, suportável.

....
Abraços,

Luciana Leitão (Lu Poulain!)

terça-feira, julho 30, 2013

Um lugar no mundo


 
-Maria, como tá o Zé?  
-Zé tá bem! E o fio, me conta! O menino já terminou a escola? 
-...

É assim que começam as conversas lá em Curva do Mundo, terra bonita, quase que sem muros; lugar onde ainda se constroem pontes por cima dos rios e usam varas para pescar.

João, nascido e criado na Curva do Mundo, sempre desdenhou a terra onde nasceu. Achava que a vida acontecia era do outro lado, em terras distâncias, em estradas de piche e linhas de ferro. 

O moço dizia que o importante era saber palavras difíceis, falar o ‘idioma dos doutores’. Começou a dizer isso quando leu um jornal velho, trazido da quitanda, que falava de política. Na data, João não entendera bulhufas, mas achou bonito aquele monte de palavras desconhecidas. 

-Interessante. Muito interessante... _disse o moço fingindo entender as notícias.

Como em Curva do Mundo não havia muitas distrações, namorar era das principais ocorrências do lugar. Todo mundo namorava e casava com uma facilidade que só! Para o namoro, João escolheu uma moça fina, daquelas que nem gostam de comida. Dizia não gostar muito da moça, mas que por ela ser bonita ele a queria. 

Suas querências ora eram grandes, ora pequenas. João desconhecia o meio termo e os agrados feitos para sua idade. Já tinha mais de trinta e só pensava em ser doutor e em assuntos do futebol. Tinha camisas e bolas riscadas pelas mãos de jogadores. Até cartela de figurinhas o moço tinha (fato muito invejado pelos meninos pequenos de Curva do Mundo!). João, por não aprender quem era e não aceitar sua terra tornou-se um homem que nunca cresceu.

'Valha me Deus, Dona Maria. Seu filho precisa se acertar na vida, aprender a amar onde nasceu e viver a idade que tem!' _dizia a cada três dias, Sincera, a vizinha.

Mas um dia a vida pediu provas do que realmente lhe valia. Sua mãe, farta de dias, estava a morrer. Morreu sem muitos alardes, como quem sonha profundo. 

Com o tempo e as ausências, na memória de João, apenas permaneceu a frase sempre usada pela mãe:

'Por favor, meu filho, aprenda a viver.'

Foi em frações de segundos, depois de ter mais de quarenta anos, que João percebeu: Na vida não teve amigos, palavras difíceis e, menos ainda, o amor. O homem nunca chegou a ser doutor e toda sua vida foi desdenhada pelos próprios olhos. 

‘A vida era pouca aqui, em Curva do Mundo, mas era bonita. E era minha...’

Percebeu que o mundo grande, que acontecia do outro lado, não era o dele. Também não foi dele o mundo pequeno, o qual rejeitara desde a infância. Não aproveitou os carros de luxo nem conversas na calçada, menos ainda as frutas frescas colhidas do pé.

Foi assim que João viveu o resto dos seus dias: como todos os outros, mas agora buscando formas de amar e honrar o lugar que agora chama de 'seu'.


....

Prece do dia: Que eu aprenda que o valor dos lugares não está na sofisticação, mas no deitar o coração sobre eles. Amém.


Bjs, Lu (a Poulain!)

quarta-feira, abril 17, 2013

Saudades




Ele: - "Camões se enganou. Amor não é fogo que arde sem se ver."

Ela: - "Como assim?"

Ele: - "Isso se chama saudade e arde mais que o amor."


Roberta Lima

sexta-feira, abril 12, 2013

Amor Velho


Ela o aguardava ansiosamente acompanhada pelo tic-tac do relógio velho na parede.
A janela estava aberta e as cortinas dançavam no ritmo da brisa que soprava levemente.
A porta encostada pra anunciar que a presença dele não precisaria de formalidades...

A antiga vitrola tocava um vinil que trazia a lembrança de um tempo gostoso vivido.
O ar estava leve...
O entardecer, uma verdadeira aquarela.

Um perfume exalava em cada cômodo da casa e o vaso de cristal colocado na mesinha do centro da sala dava um toque de beleza.

O portão se abre e o coração dela acelera...

Uma pontada de insegurança brota quando percebe que os passos se aproximam.

Ela queria fugir e ao mesmo tempo correr para os braços do seu grande amor.

"Será que estou bonita?" - ela tenta se ver no espelho...

As mãos dele encobrem os seus olhos e um sussurro é pronunciado ao pé do ouvido:

"Não esqueci! O amor que brotou naquele dia ainda floresce, hoje, querida...."

Uma lágrima escapa dos olhos dela.

Ele a toma em seus braços, beija os lábios dela com o cuidado como se fossem sagrados e as rugas só provaram que o tempo não envelheceu o amor... Amadureceu!

segunda-feira, fevereiro 18, 2013

Piraicá


Piraicá é uma cidade pequena com muitas ruas de terra. Nem o mapa cita ela.

A cidade é simples; Simples e encantada. Lá, as pessoas acreditam nas estórias contadas por boca de criança. Magia, pra eles, é coisa sagrada.

Na placa de entrada há uma grande placa velha, de cor ferrugem e desenho retrô:

É proibido o desencanto

Eis o primeiro mandamento em forma escrita, sem muitos rodeios.

Na praça principal, em frente à igreja ‘Joana Nos Salve da Tristeza’ tem uma árvore grande e torcida com mais de centenas de anos. Conta-se que fadas moram no primeiro grande tronco.

A primeira (e última) pessoa a ter visto fadas foi Marina. Hoje, mulher crescida e apequenada pela muita idade. Na época tinha cinco anos e, cansada de brincar de correr, se aproximou-se da árvore para descanso.

Observou, com o canto dos olhos, pequenas luzes dançantes; e absorvida pelo inusitado, se aproximou ainda mais.

Ouviu sons.

Era um barulho fino e agudo, como a tecla última do piano tocada muito rápido e muitas vezes.

‘Tinham cores como estrelas' - conta Marina com os olhos em brisa - 'Tinha fada azul e fada vermelha, tinha fadas de todas as cores. Menos roxo! Ninguém é capaz de imaginar o por que...'

Ela conta que depois desse dia seus olhos se abriram para os detalhes; Não havia passeio que fizesse que não procurasse fadas e encontrasse flor.

É fato que, depois disso, nunca mais fadas foram vistas, apenas sonhadas por muitos moradores e turistas.

Alguns juram de pés juntos e dedos soltos que, de madrugada, quando a cidade faz silêncio, é possível ouvir o som agudo das fadas inquietas.

Mas logo explicam:

Só ouve quem acredita!

A história da árvore se tornou sagrada. Mais sagrada que a própria igreja ‘Joana Nos Salve da Tristeza’. Talvez porque o encanto tivesse matado a tristeza e Joana não precisasse mais se preocupar.

Se existe algo encantado naquela árvore? Não sei, mas eu escolhi acreditar.

Pensar que lá moram pequenos seres cheios de luz e cantos deixava Piraicá mais bonita.

Às vezes, a gente acredita só pela beleza...


....

Conto contado e escrito por: Luciana Leitão (a Poulain!)

segunda-feira, fevereiro 11, 2013

Papoulas





Gosto de flor.

Sou capaz de trocar o caminho de retorno para procurar por elas; e quando possível, fotografá-las.

Mas não gosto apenas do carinho que elas fazem nos olhos e da delicadeza que provocam na pele, gosto também dos significados que elas guardam em suas histórias e lendas.

Confesso que através deles que prefiro algumas (mas não conte às outras, por favor. Flor ressentida brota espinhos).

Uma das minhas preferidas se chama Papoula, elas me lembram esperança e qualquer outra coisa bonita que brote dentro da gente depois de dias nublados, e cinzentos.

As papoulas são vermelhas e, como eu, gostam de frio. Mas seu significado é grande e não consegue se guardar em palavras; para descobri-lo é preciso da história (sim, 'história' daquelas que acontecem de verdade e não 'estórias' que só acontecem na alma da gente).

Seu significado nasceu no final da 1º Guerra Mundial, quando surgiu a notícia de que os militares que sobreviveram voltariam para casa.

Na casa de Mary, a notícia foi dita com ruídos e chiados de um rádio velho que funcionava a pilha, mas foi o som mais doce que ela e a família poderiam receber.

Ela esperava ansiosa pelo seu irmão. Ele ainda era moço mas tinha uma filha e uma esposa que também esperavam ansiosas por ele.

Os vizinhos também esperavam por alguém.Todos tinham parte de seus corações nos campos de batalha.

Mary gastava a maior parte das horas no lado de dentro de casa, geralmente lendo ou fazendo silêncio para ouvir as notícias sobre a guerra.

Nem ao menos espiava o lado de fora. Olhar pela janela era como ver a morte encarnada nos rastros de sangue e matar o sono das noites com imagens de puro terror.

Mas aquele dia era especial, todos sabiam que teriam seus jovens de volta. A alegria estava tão distante nos últimos meses que ninguém se lembrava do quanto era bom se sentir feliz.

O sol voltou três dias depois do retorno dos militares, e pôs se a derreter o gelo maculado de sangue vermelho.

'Venha ver, pequena criança! Brotou bondade da terra. O que era sangue tornou-se flor.' _disse o velho avô à Mary, diante da janela.

Pequenas papoulas haviam florescido e junto com elas: o riso, a presença de quem tinha ido e (por pura sorte dos céus) retornou e a saudade de quem se foi.

O avô da menina, de forma bonita ensinou: 'A bondade para amanhecer a alma não precisa ser forte, basta ser terna.'


Beijos, Lu (a Poulain!)



Nota:  Desde 1921, flores de papoula florescem nas lapelas e colarinhos de muitos canadenses em memória dos que perderam sua vida na guerra.

Para quem deseja saber mais sobre o significado das papoulas, clique AQUI.


quinta-feira, dezembro 27, 2012

A criação e os apascentadores - um conto

Nota ao leitor: Esse texto é um conto. É obra de ficção, não de teologia. Os termos deus, pai, filho e espírito estão em minúsculas por se tratarem de personagens do conto, não do sagrado, de que trata a teologia. 

No princípio estava tudo: era a família: o pai, o filho e o espírito que os unia, que carregava, em si, a maternidade, e que é uma pessoa. A família estava em constante dança, feliz, alegre e completa em si mesmo. 

O filho pediu ao pai a possibilidade de estender esse amor. Como um deus não pode se reproduzir, por que deus, a família , por definição, existe desde sempre e para sempre, isto significaria criar o que pudesse ser amado e amar. Portanto, à imagem da família. Uma família semelhante. O pai concordou em criar outra família, expressão da família eterna. 

E a família, que até então era só e suficiente, passaria a ser a família original, ainda que totalmente outra. 

Seres, para poderem amar, precisariam ser livres. Liberdade, entretanto, é algo que só um deus pode sustentar, por causa da responsabilidade que demanda, mas, se a família semelhante já surgisse habitada pelo espírito que habita o pai e o filho, não seria livre. Criaturas são, por definição, finitos, logo, só podem ser tudo o que podem ser, ou seja, apenas perfeitos para, não perfeitos em si. Porque só um deus é perfeito em si. Seres finitos, livres... A liberdade dessa outra família se voltaria contra a família original. A família semelhante romperia com a família original! Um impasse! 

A família original perdoaria porque é amor e o amor só age assim. Mas, havia o princípio de justiça sustentado pela família original, que não poderia ser descartado e que nenhuma criatura pode satisfazer; o que inviabilizaria a criação. Se a família decidisse criar a família semelhante, teria de satisfazer a demanda do princípio da justiça.

A família semelhante, portanto, não poderia ser criada no mero espaço da família original, tinha de ser num espaço a ser criado primeiro, o espaço do sacrifício da família original. A rigor, por ser criação, já o demandaria, porque o que não pode se sustentar não pode existir, pois fere o princípio da justiça, cuja demanda tem sempre de ser satisfeita, sob a pena da insustentabilidade. E decidiram que assim seria, o filho se prontificou a representar a família original e, para que houvesse criação, no seio da família original se fez um ambiente, até então imponderável, o ambiente do esvaziamento.

O filho se esvaziaria para satisfação do princípio de justiça, num “qüid pro qüo”, (uma coisa pela outra) o que o levaria a entrar na criação para anunciar o custo da criatura, e, uma vez na criação, teria de manifestar da forma mais pungente possível o custo da criação, demonstração necessária por causa do agravante da ruptura e, portanto, da necessidade do resgate. O que deveria ter sido um sacrifício teria de ser sacrificado. 

Tudo seria feito no filho em estado de sacrifício, e só o filho falaria pela família original.

E a família original experimentaria o que parecia impossível: por amor à criatura, amor que, no pedido filho, se estabeleceu na família original, porque já estava lá desde sempre, assumiria o sacifício.

E tudo se fez num ambiente ainda mais imponderável: o sofrimento!

A família semelhante se desfaria como família, perdendo-se na confusão entre identidade e individualidade. Perdendo o senso de comunidade se perderia no individualismo. A ruptura com a familia original a afundaria na escuridão e na maldade. E o que deveria ser- lhe servo, seria seu algoz. 

De família semelhante passaria a ser o conjunto dos que perderam a noção da família. 

Seria uma situação impossível de sustentar, se o sacrifício não fosse suficiente para permitir que a família original emprestasse bondade para os membros da família semelhante, garantindo a sua sobrevida.

A família original interferiria na história do conjunto dos em perda, sem determinismo, mas com determinações que garantiriam o resgate do mesmo. Como a família original não pode ser surpreendida, sempre saberia onde e quando. Assim, a família, que resolveu tudo desde o começo, pôde anunciar como seria o fim.

A família original criara: criaturas não vivem no eterno, só no tempo; e mesmo tempo que não tenha fim não é eternidade, pois eternidade é onde qualquer noção de tempo é ausente, por definição. No tempo, a família original contaria com membros do conjunto, que receberiam luz suficiente para apascentar os que, como eles, voltariam a reconhecer a família original, por serem tomados pela consciência de que eram membros da família semelhante e, como tal, deveriam viver.

Esses cooperadores da família, homens e mulheres, receberiam vários nomes: visionários, loucos, patriarcas, sacerdotes, juízes, ungidos, profetas, apóstolos, presbíteros, diáconos, pastores; mas, sempre seriam, tão somente, cooperadores da família original e apascentadores da humanidade. A missão deles: a retomada da família semelhante.

Esses amigos da família e servos da humanidade viveriam de várias maneiras: como chefes de clã, como nômades, como andarilhos, como ermitões, como fugitivos, com protocolo, sem nenhuma noção de indumentária, no deserto, nas aldeias, de cadeia em cadeia, de cidade em cidade, numa comunidade ou tendo o mundo como paróquia, mas sempre segundo o coração da família original.

Desses membros do serviço da família original, muitos seriam o que se chama de bem-sucedidos, outros morreriam ainda jovens, outros carregariam para sempre as marcas da tortura, alguns seriam serrados ao meio, uns passariam pela cruz como o seu mestre, outros veriam o fim da sua fé, alguns morreriam na esperança, uns viveriam em família, outros a perderiam para poder viver o que tinham de viver, mas todos perseguiriam a mesma visão, e seriam mais do que qualquer sistema pode sustentar, mais do que qualquer mundo consiga dignificar. Eles só queriam ser recebidos na glória!

Então... Quando tudo não precisava de nada, a família falou: Façamos o homem à nossa imagem-semelhança, e tudo se fez de modo que a soberania da família fosse mantida e a liberdade humana não fosse aviltada. Selá!
(c) Ariovaldo Ramos

terça-feira, dezembro 18, 2012

Louco... Essa Noite...




Mostrando com orgulho e altivez a sua  BOA fazenda ao seu mais novo empregado, um matuto, que morava pelas bandas e vivia com um pedacinho de mato na boca, o altivo dono se exibia... 

- Ohhh quantas riquezas consegui! Disse o homem gabando-se! Consegui tudo que eu quis...

- Como o senhor conseguiu tanta riqueza? Ousou perguntar o mais jovem empregado da fazenda... já que ele não tinha medo de nada e de ninguém... 
- Foi o Senhor que me deu! 



- Senhor? o Deus dos deuses? lhe deu riquezas? Disse o matuto agora muito confuso... 
- Sim, quando eu queria alguma coisa ia ao templo e jogava aos seus pés grandes quantias de oferta! E Ele foi me dando cada vez mais. E me DEU tudo o que eu quis! 
- Mas isso não é querer comprar o favor de quem dá tudo de graça? 
- Ora, ele não dá riquezas a quem não em abundância suas ofertas, mas logo vê que você não conhece o meu deus. 
- Acho que não conheço mesmo. Quem é ele? a quem adorás? 
- Ora, Jesus, o Salvador? Disse o homem indignado... 
O jovem empregado arregalou seus olhos! tirando o chapéu e coçando a cabeça...
- Estranho, como pode um Deus Homem que viveu na terra da forma mais humilde do mundo, agora dê tantas riquezas aos seus seguidores, sendo que Ele mesmo não tinha onde recostar sua cabeça e nem mesmo uma casa!? Quando Esse mesmo Deus estava sendo tentado pelo diabo, foi seu adversário mostrando as riquezas do mundo que  lhe disse: - tudo isto te darei seprostradome adorares.

A conversa parou por ali... O matuto foi pra casa, entristecido por tudo que ouvira, coração doendo, lágrimas escorriam de seus olhos: O que fizeram do teu evangelho, Jesus? O Patrão foi pra casa, e no outro dia não se levantou para o trabalho e nem os outros dias que se seguiram, pois naquela noite, pediram sua alma... 





quinta-feira, outubro 25, 2012

AS CRÔNICAS DE NÁRNIA E O EVANGELHO


O Cristianismo por trás de Nárnia – Alegorias, mitos e a Bíblia.

Aslam significa leão. É um personagem que morre pelos outros e depois volta a viver. É filho do Imperador do Além Mar. Mudando de história, os judeus tinham uma promessa de um messias, o rei deles, filho de Deus, que viria a terra para salvá-los e morrer por eles. Chamavam-no de Leão de Judá. Para os cristãos, este é Cristo, que morreu e ressuscitou. Simples coincidências? Ecos da fé do escritor das Crônicas de Nárnia, C. S. Lewis? Ou algo a mais?

As Crônicas de Nárnia são sete livros que C.S.Lewis escreveu nas décadas de 40 e 50. Sete, por sinal, é um número recorrente na história judaico-cristã, considerado o “número da perfeição” dentro da simbologia religiosa. Há leitores que insistem na ideia de que Nárnia é só mais uma história, só mais um livro dentro da literatura imaginária infantil. Mas são tantas as comparações com o cristianismo, que fica difícil achar que realmente não há semelhanças. Lewis, ele mesmo, já tinha sido ateu, mas tornou-se um cristão e escritor de diversos clássicos da teologia britânica do século XX, como Cristianismo Puro e Simples, Cartas do Diabo a seu Aprendiz e O Peso da Glória. Nada mais coerente do que transpor alguns dos seus conhecimentos – e, muitas vezes, teorias complexas – em sua literatura infantil. Da mesma forma, Lewis escreveu alguns livros mais adultos, entre estes a Trilogia de Ransom.

Nárnia, portanto, seriam histórias repletas de pequenas lições, alegorias das histórias bíblicas e apresentações de teorias de Lewis. Há quem diga que Nárnia pode ser até real, mas isso não há como discutir. Quando Lewis decidiu escrever os livros, provavelmente queria passar ensinamentos para as crianças, talvez dar uma chance delas conhecerem tudo aquilo que perderam junto com seus pais na II Guerra Mundial. Professor que era, apaixonado pela mitologia e ainda abrigando quatro crianças, nada mais normal da parte do escritor.

Para compreender o caráter alegórico, é preciso entender o significado desta figura de linguagem. Se a ‘metáfora’ é quando a identidade de algo é firmado com um atributo que tem em comum com outro elemento, ambos retirados da realidade e quase sempre usado de forma curta na literatura, este termo não basta para Nárnia. Já a ‘alegoria’, muitas vezes usada na retórica, é a “representação concreta de uma idéia abstrata”, muitas vezes mítica, expressa na fabulação (A Alegoria, Flávio R. Kothe). Nárnia é exatamente isto, a fábula composta para representar uma ideia; elementos concretos, nem sempre retirados da realidade, usados para significados abstratos.

Como o livre-docente em Crítica Literária e Literatura Comparada Flávio R. Kothe exemplifica, São Jorge e o dragão é uma história alegórica do bem e do mal. Nárnia, portanto, é uma alegoria do cristianismo, com a licença poética de Lewis. Kothe também lembra que há várias leituras possíveis das alegorias, nunca uma só interpretação, mas é necessário interpretar via exegese, ou seja, levando em conta o contexto histórico. Nárnia, por sua vez, sempre é melhor compreendida se estudarmos quando foram escritas e os outros escritos de Lewis.

O passado de Lewis, também, ajuda na compreensão de Nárnia. O caráter alegórico não é somente uma licença poética, uma figura de linguagem na literatura infantil cristã. Para Lewis tinha um significado mais especial na história de sua conversão ao cristianismo. Ateu convicto, Lewis, como ele mesmo contou em Surpreendido pela Alegria, um dia passou a acreditar em Deus. Mas era um mero teísmo, ele não estava convencido de que o cristianismo era real.

David Downing, em sua obra C.S.Lewis: o mais relutante dos convertidos, conta como no dia 1º de outubro de 1931 Lewis escreveu para seu amigo Arthur que não cria somente mais em Deus, mas em Cristo. O ponto da conversão ao cristianismo de fato teria sido uma conversa com o acadêmico Hugo Dyson e o escritor J.R.R. Tolkien (sim, o pai de O Senhor dos Anéis era amigo íntimo de Lewis, e estes três participaram de um mesmo grupo de discussões literárias). O aspecto final que faltava para Lewis se tornar um cristão era justamente ligado com a interpretação dele das mitologias, o que pode explicar o fato dele ter criado mais uma mitologia para dar eco ao cristianismo.

“(…) Os três haviam começando a falar sobre metáfora e mito logo após o jantar, continuando a conversa enquanto caminhavam ao longo do Addison’s Walk perto do alojamento de Jack no Magdalen College e só foram dormir às quatro da manhã. Essa conversa pode muito bem ser considerada o momento decisivo na vida de Jack [apelido de C.S.Lewis], pois o ajudou a resolver questões com que ele se vinha debatendo desde a infância. De modo específico, proporcionou-lhe um modo de entender a encarnação como o cumprimento histórico dos mitos do Deus-que-morre encontrados em muitas culturas. Tolkien e Dyson, que compartilhavam a reverência de Lewis pelo mito, pelo romance e pelos contos de fadas, mostraram-lhe que a mitologia revela sua própria espécie de verdade e o cristianismo é mitologia verdadeira. Lewis insistira que os mitos não passavam de ‘mentiras proferidas por meio de prata’, mas eles responderam que o mito era mais bem explicado como ‘um vislumbre real, embora desfocado, da verdade divina incidindo sobre a imaginação humana’. Argumentavam que um dos grandes mitos universais, o do Deus-que-morre em sacrifício pelo povo, mostra uma consciência inata da necessidade de redenção não por meio das obras pessoais, mas como dom proveniente de alguma esfera superior. Para eles, a encarnação [de Deus em Cristo] era o ponto principal em que o mito se tornava História. A vida, a morte e a ressurreição de Cristo não só concretizavam tipos do Antigo Testamento, mas também corporificavam – literalmente – motivos centrais encontrados em todas as mitologias do mundo. (…) Para Lewis, o cristianismo passaria a ser, dali por diante, a principal fonte de todos os mitos e histórias de encantamento, a chave de todas as mitologias, o mito que desabrocha em história.”

Comparações montadas, alegoria do cristianismo. Lewis compôs em Nárnia mais um mito de Cristo e a história de seu povo, provavelmente buscando com isso atingir as crianças, ganhar uma porta na história delas para Cristo, que tanto fez diferença na vida dele. A série “O Cristianismo por trás das Crônicas” busca desvendar diversos destes traços cristãos nas obras narnianas, características que já guiaram o caminho de muita gente e ilumina os olhos de outros. Convido vocês para abrir a porta do armário e conhecer Nárnia pelas suas influências.

A analogia das “Crônicas de Nárnia” com a vida cristã é notável! Certamente, C.S. Lewis, que foi um grande apologista cristão, como se pode notar em obras como “Mero Cristianismo”, tinha a intenção evidente de passar a mensagem bíblica aos seus leitores. A referência aos seres humanos como “filhos de Eva” explicita essa relação entre Nárnia e a Bíblia. No filme também aparece esse simbolismo. As comparações que serão apresentadas aqui servem como convite para que outros espectadores procurem mais analogias e simbolismos.

O armário “mágico” simboliza a presença oculta e misteriosa do mundo espiritual, que, embora ilimitado, pode ser de alguma maneira contido no nosso mundo natural. Nárnia é enorme, mas cabe dentro do armário naquele quarto abandonado. O Céu é ilimitado, mas parece poder ser contido, de alguma maneira, nas almas dos santos. É na parte inexplorada da casa, naquele quarto abandonado, que se abre o mundo de Nárnia. É na escondida Nazaré, sem grande valor social, que o Verbo divino nasce.

A descoberta de Nárnia por Lúcia, a menor e mais inocente dos quatro irmãos, simboliza o fato de que é a pureza que permite perceber as realidades espirituais, o que é também é simbolizado pela virgindade de Maria, mãe de Jesus. O fato de que os outros não acreditaram simboliza a descrença daqueles que não tiveram a experiência da revelação cristã. A discussão entre o Professor e Suzana sobre a “lógica” da mensagem de Lúcia simboliza as discussões que os cristãos enfrentam sobre as relações entre “fé e razão”. O estilo pedagógico e racional do professor, de grande clareza e eficiência na argumentação, simboliza a apologética cristão do próprio C.S. Lewis.

As dúvidas que o fauno, Sr.Tumnus, possuía sobre a existência de seres humanos, mostrada também pelos títulos dos livros que tinha em casa, simboliza as dúvidas que as pessoas não convertidas possuem sobre as existências de seres e bens espirituais. A perseguição da feiticeira contra os seres humanos em Nárnia simboliza a perseguição do mundo contra os cristãos. O ódio que ela possuía contra os seres humanos simboliza o ódio infernal do diabo.

A neve permanente que cobre Nárnia durante o governo da “Feiticeira Branca” simboliza a frieza e a esterilidade do pecado na vida sem Cristo. A sedução de Edmundo pela Feiticeira Branca é comparável ao pecado original e o domínio que esta lhe impõe é comparável ao jugo que os demônios impõe à alma em pecado mortal. Começa com a promessa de que ele poderá reinar acima dos outros e continua com a ilusão daquela comida oferecida, a qual agrada sem satisfazer realmente e que depois é substituída por alimentos cada vez piores e pela ameaça de petrificação, o que simboliza o enrijecimento espiritual, e de morte. O medo que os anões e os lobos sentem da Feiticeira simboliza o medo que toma conta da alma daqueles que seguem o caminho maligno.

As brigas infantis entre os quatro protagonistas antes de assumirem seriamente a missão em Nárnia simboliza as disputas entre os apóstolos antes de Pentecostes, assim como as rixas cristãs provocadas por desamor. A comoção e o arrependimento que Pedro, Suzana, Edmundo e Lúcia sentem ao encontrar Aslam pela primeira vez no filme simbolizam a consciência do pecado e o arrependimento que o cristão sente diante do Cristo, o que já antecipa algo do juízo final.

A falta de som no encontro entre Edmundo arrependido e Aslam simboliza o isolamento da consciência arrependida na confissão: os pecados confessados só interessam ao próprio pecador e a Nosso Senhor Jesus Cristo. Mesmo que esse, às vezes, seja simbolizado pelo sacerdote - os outros irmãos, ou cristãos, não precisam ficar sabendo. O acolhimento de Edmundo após sua traição simboliza a volta do pecador arrependido, com a qual os seus irmão se alegram depois da orientação de Aslam para que não falassem sobre os pecados passados. A busca que os outros irmãos fazem para encontrá-lo simboliza a busca da ovelha perdida do Evangelho.

A pergunta que Aslam faz a Pedro sobre sua crença nas profecias de Nárnia simboliza a importância da fé do apóstolo Pedro e da Igreja como um todo nas profecias do Antigo Testamento e do próprio Cristo. A alegação de incapacidade que Pedro utiliza nessa hora simboliza a humildade dos vocacionados cristãos que percebem a própria miséria diante da gloriosa missão à qual foram chamados. Ser nomeado rei simboliza o batismo, pelo qual o cristão é rei, sacerdote e profeta.

A prova de Pedro, ao enfrentar o lobo sozinho, simboliza as provas pessoais que um cristão deve enfrentar na sua vida de fé. Os presentes que Pedro, Suzana e Lúcia recebem do Papai Noel simbolizam sacramentos. A espada de Pedro representa a Palavra do Evangelho que corta e penetra. A “magia profunda” que Aslam cita e à qual ele se sujeita simboliza o poder do Pai e a sujeição de Cristo, como Filho amado, ao Pai.

A Lei de Nárnia simboliza a Lei de Moisés do Pentateuco. A Feiticeira Branca, nesse aspecto, simboliza o diabo que exige para si o sangue dos pecadores. A horda de seres sinistros que acompanham o sacrifício comandado pela feiticeira simboliza a hora de demônios do inferno. O momento do sacrifício simboliza a “hora das trevas”. O Leão que se deixa sacrificar simboliza o Messias inocente que morre pelos pecadores. A agonia pela qual o Leão passa na véspera do sacrifício simboliza a agonia de Nosso Senhor Jesus Cristo no Getsêmani. Suzana e Lúcia, nesse episódio, ao consolarem Aslam, simbolizam os apóstolos que estavam mais próximos de Jesus naquele momento: João, Pedro e Tiago.

A pedra que se quebra na mesa da montanha simboliza a cortina rasgada do templo com a morte de Jesus, isto é, simboliza o fim da vigência das leis de Moisés para aqueles que morreram e ressuscitaram com Cristo. A ressurreição do Leão simboliza a ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. A presença de Suzana e Lúcia ali na ressurreição de Aslam simboliza o testemunho da ressurreição do Cristo que foi dado por Maria Madalena.

A tropa comandada pelo rei Pedro simboliza a Igreja militante que luta contra as tentações, contra o pecado e contra as forças do mal que se manifestam na vida humana terrestre. O próprio Pedro simboliza o Apóstolo Pedro, pedra na qual a Igreja foi construída. A diversidade de seres que pertencem ao exército de Aslam simboliza a diversidade de ministérios na Igreja. O pedido que Edmundo, o Justo, faz a Pedro para lutar na batalha, alegando a necessidade de salvação do povo de Nárnia, simboliza o compromisso do cristão convertido com o resto da Igreja.

A tropa que chega posteriormente com Aslam, Suzana e Lúcia simboliza o grupo de convertidos posteriormente, libertos da petrificação ou do pecado. Em certo sentido, simboliza aqueles justos que morreram antes da vinda de Cristo e foram libertos por Ele quando desceu “à mansão dos mortos”. Os petrificados, enquanto impotentes para ajudar a si mesmos, também podem simbolizar a Igreja que não pode se ajudar, mas depende das orações dos outros, isto é, as almas do purgartório.

A tropa que comemora a vitória no castelo simboliza a Igreja Triunfante dos santos que comemoram a vitória sobre a morte do pecado. O elixir que Lúcia oferece para curar Edmundo simboliza os sacramentos, especialmente a confissão e a eucaristia, forças espirituais que resgatam as forças do pecador caído.

As características principais do reino de Nárnia, com seus castelos, cavaleiros e seus reis nomeados por Aslam, simbolizam os reinos cristãos que existiram na Idade Média, quando os reis atribuíam sua autoridade à submissão a Cristo, simbolizado na Igreja.

O fato de que, mesmo depois de serem reis, os quatro protagonistas ainda precisam voltar à vida normal de antes, onde serão governados por Marta, simboliza o fato de que os cristãos continuam vivendo como pessoas normais no mundo, sujeitos às autoridades políticas, mesmo depois de experimentarem realidades sobrenaturais enquanto participam do corpo mítico de Cristo. É uma tensão permanente para o cristão, que é simbolizada na sua dupla cidadania, terrestre e celeste. Por outro lado, a obediência de Marta ao professor simboliza a submissão ideal dos poderes temporais do Estado ao poder espiritual da Igreja.

O afastamento de Aslam no final simboliza a Ascensão de Cristo que voltou para o Pai. O fato do leão não ser “domesticado” simboliza a liberdade de Cristo em relação às instituições religiosas: “o Espírito sopra onde quer”. A mensagem dada pelo professor a Lúcia após os créditos, de que ela poderá voltar a Nárnia quando menos espera, simboliza a mensagem profética da volta de Jesus em um momento que ninguém poderá prever.

terça-feira, outubro 02, 2012

Uma conversa de inverno







Amante 

Sabe querido, estive pensando e cheguei a conclusão que preciso daquela água  que você prometeu á aquela mulher na beira do poço, não quero mais sentir sede sabendo que você pode me saciar.  Preciso dela para limpar meu coração também, acho que tem muita sujeira lá dentro, algumas coisas  congelaram  por falta de uso e como o tempo é de frio..
Ta tudo tão frio lá fora, e aqui dentro também.Infelizmente eu deixei o inverno imperar por muito tempo e como eu sei que meu coração é terra que ninguém pisa apenas você, será que seria demais pedir para aquecê-lo também?  Porque eu sei que na hora que você aquecer meu coração muita coisa vai voltar a funcionar ! 

Parece que a caixa d'água estragou, não sai mais água. Não escorre pelos olhos.


Amado 

Minha querida, sabes o que estás a me pedir? Suponho que saiba que a partir de então começará a sangrar porque tocarei seu coração, espere apenas mudar a estação.

Está  disposta a doer novamente, sentir  dores, se comover com o amor, se deixar afetar? 
Eu sei de todo o caminho que trouxe você para cá, e estou feliz que mesmo assim você ainda queira  sangrar. 

Amante 

Sim, quero. Quero sangrar novamente, quero que me aqueça, quero que amoleça meu frio coração, estou cansada de não ver as lágrimas rolarem, estou cansada de ver tudo acontecer  sem ao menos ter outra reação. Não quero ser de lata. 

Amado 

Tava com saudades das nossas conversas, você ficou muito tempo sem me falar com palavras...

Amante 

Nosso amor realmente é forte, ultrapassou os limites da vida e da morte. Veja só querido eu praticamente morta e sem vida ainda sim chamei por você. 
Me dê sua vida. Quero viver  !


Amado

Minha vida é sua, não entendeu ainda, que meu amor em você e por você é mais forte? 
Jamais estive longe, estava dentro de ti, mas não podias me sentir.


Uma lágrima então escorre dos olhos da pequena. 
E com sorriso entendeu que seu pedido foi realizado. 
Seu coração foi levemente aquecido,  o resto era questão de tempo.
Mas tudo seria a partir de então diferente por causa daquele breve, eterno momento.


Simone Caetano