segunda-feira, março 26, 2012

Aprendiz de mim #10: a questão da igreja.

Ultimamente sinto-me sendo reconciliada com a igreja e isto não se deve ao fato de ter me tornado alguém novamente institucionalizada ou mantenedora de títulos e funções tidas como eclesiásticas. Sempre me senti à vontade sendo chamada de irmã, e hoje, mais do que nunca, é assim que desejo prosseguir. Como irmã de muitos, fraternidade que se estende além dos guetos em que outrora transitei. Descobri que aquilo que sempre suspeitei, era real: Deus é muito maior do que aquilo que pensamos que sabemos sobre Ele. Sua multiforme maneira de apresentar-se é realmente surpreendente. Eu apenas tento manter os sentidos abertos para percebe-lo nos mais inusitados e improváveis contextos.

Fui machucada pelo fundamentalismo religioso. Machuquei também. Faço a “mea culpa” devida. Doeu demais ter retirado de debaixo de meus pés muitos dogmas e sofismas. Fui vaso quebrado que agora está sendo lenta e vagarosamente refeito. Duvidei de tudo: inclusive de mim mesma e de Deus.

Alguns podem se perguntar: é possível reconciliar-se? Com o coração cheio de esperança, respondo que sim. É possível olhar para a igreja como um todo e de forma paradoxal, enxergá-la em seu invisível e belo. Sim, a igreja com quem me reconciliei é sobretudo invisível. Não está procurando por bens, fama ou coisas inerentes a esta terra, ainda que por assim ser, cause grade impacto nas margens onde pisa.

A igreja que amo e acredito é aquela que estende seus braços ao nu, ao necessitado, ao marginalizado, ao órfão e à viúva.  Aquela que por vezes se esconde nas vielas de grandes periferias e ali reparte  o pão. Igreja na qual a dona de casa iletrada se matricula em um curso de alfabetização para poder ler a Bíblia e que tal qual o modelo primitivo se esmera em ter igualdade. Onde a diarista e o intelectual podem compartilhar, de igual para igual, suas experiências espirituais, pois sabemos que a espiritualidade, assim como a arte, não tem nos títulos acadêmicos sua principal fonte.

Acredito na igreja que abraça a graça comum, que discerne a “imago dei” (imagem de Deus), que sabe que estamos todos em “coram deo” (diante da face de Deus).  Me reconcilio com aqueles que encabeçam movimentos pela paz, pela justiça social, que oram para que “venha o Teu reino” e em solo terreno trabalham com a alma cheia de sacralidade, crendo na vocação e no trabalho não como algo a ser dicotomizado entre secular e sagrado, mas como algo a ser experimentado e vivido em simplicidade e verdade.

Acredito na igreja que poetiza, que olha os lírios do campo e não se mostra indiferente. Que se torna cidadã e ecoparticipativa.  Me reconcilio com aqueles que não querem barganhar, que não levantam bandeiras excludentes, que não se comportam como “raça superior” diante de seus iguais, que não olham com olhar julgador e condenador, que não se julgam os monopolizadores do poder ou da verdade.

Com esta igreja, por vezes quase sufocada pelos barulhos da falta de amor, reconcilio-me.  A esta igreja rendo-me de coração aberto. Ela pode ser institucionalizada, ou não. Mais do que frequência, ela requer comunhão. Sabe deixar livre quem quer que seja, pois reconhece que a transformação emana Daquele que é tudo em todos. Seu papel é de ensino e amor.
Já não erijo altares. Já não lanço pedras. Já não me intitulo como isto ou aquilo. Já não fico presa a agendas. Sou também um pouco de tudo em todos, tal qual meu Mestre. Compreendo que a principal “obra” a ser feita chama-se: “nós mesmos”!

Confesso ter um cantinho institucional e especial que hoje gosto de frequentar, ainda que em doses muito homeopáticas. Reconciliação demanda tempo. Confiança quebrada não se readquire do dia para a noite. Mas estou em paz, pois entendi que ser é bem maior do que estar e mais ainda: que ser igreja (tabernaculada por Ele) é como para sempre quero estar.

Aprendendo a ser igreja,
Roberta Lima
Reações:

10 comentários:

  1. Roberta, sua alma é linda!

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    1. Anônimo(a),

      Normalmente recebemos agressões e não elogios de anônimos. Seu comentário não deixa de ser um pouco surpreendente neste ponto (ainda bem que para toda regra há exceção).

      Muito obrigado(a) por achar que minha alma é linda!

      Beijos,

      Roberta

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    2. Verdade sobre o(a) anônimo(a), Robertinha! rs
      --

      Mana,
      sua alma é linda!

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    3. Risos!

      Então a sua também é, somos irmãs gêmeas de alma, né?

      =)

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  2. Muito bom!! Não se sinta só. Muitos já passaram por problema semelhante. Tenho certeza que você tem bagagem de sobra pra pregar o evangelho e acolher o necessitado. Muitos precisam de você!
    Abraço

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    1. Querida Gislaine,

      É verdade, muitos já passaram por situação semelhante. O blog mesmo foi um grande espaço revelador-curador de pessoas em processos parecidos de cura e restauração. Dúvidas e medos.

      Deus te abençoe!

      Bjs,

      Roberta

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  3. Robertinha, meus elogios já não são novidade, mas faço questão de dizer-te o quanto sou impactada a cada nova postagem tua e até mesmo quando fico relendo outros tantos aqui guardados. A maioria de nós já conhece esse caminho, já acampamos dias e mais dias nesse campo de batalha nada aconchegante.Reconciliar-se com o todo e por total tem sido minha busca constante, e o mais engraçado disso tudo é que por um instante cheguei a pensar que meu querer desenfreado, porem totalmente bem intencionado, me pouparia das frustrações ai que me enganei...Meu desejo esbarra em mim, quando o bondoso Deus me diz que preciso ser confrontada e ferida, sim ferida. Precisamos ser feridos para que assim possamos ser curados por Ele. Restaurar requer tempo mas o restaurador não preocupa-se com isso né? ele que pôr em bom estado tudo que foi danificado e ao findar seu belíssimo trabalho ouvir de si próprio "ficou perfeito". E dai por diante temos que nos reconciliar com aqueles que dizem: não está original, tem muita tinta, aquela cor não combina e compreendermos que eles também podem não entender de restauração etc etc e etc... pra terminar porque isso aqui não é um texto kkkkkk , começa em nós mesmo, com o Deus invisível dessa igreja invisível,para que reino possa ser totalmente visível (caminhemos livre, leves e totalmente presos Nele) Bjimm flor!

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    1. Isa,

      Tomando emprestada uma palavra corriqueiramente utilizada pela Tininha: "EMUDECI" com seu comentário!

      Bjks flor imurchável

      =)

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  4. Maninha querida!

    Bom, já conversei contigo antes, mas tenho que dizer que teu texto me impactou de tal forma, que as palavras passaram por mim e permanecem reverberando!!!!

    É essa Igreja que busco ser e pela qual tenho me empenhado, para que o nosso Maravilhoso Deus faça sua glória brilhar!!!

    Keep going Ro!!!!

    SSF¹!!!!

    Love you sis!!!

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  5. Amém e amém Déinha,

    SVMA mana!

    Bjus!!!

    =)

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