quinta-feira, agosto 15, 2013

O moço e a sua dor

Há dores que nunca nos abandonam. Morrem a gente. Algumas, de tão agudas, se agarram à história e sobrevivem até mesmo a nossa partida.

Conheci um moço que carregava uma dor como essas no ombro. O nome dele eu não lembro, mas recordo que era doutor; não desses que usam branco, mas dos que usam terno e gravata, e recebem para fazer justiça.

Ele nem deve ter me notado no primeiro momento. Lembro perfeitamente dos seus olhos analisando os fios de plástico, os medicamentos e o espaço no quarto usado por mim e outra paciente.  Os olhos dele se agarram nos meus apenas nos últimos instantes em que fazia seu trabalho. Talvez porque tenha notado minha escuta.

-Como segue a visitação dos médicos? _perguntou o moço à enfermeira. 
-Desde o inicio da CPI, todos estão seguindo as regras, doutor._respondeu a moça.
O moço suspirou.
Paralisado das pernas, caminhou o quarto, mais uma vez, apenas com os olhos.

-Engraçado voltar a esse lugar. A vida faz coisas estranhas com a gente...

A enfermeira segurou os olhos sobre ele até que sua fala continuasse.

-Meu pai, há três anos morreu aqui, neste hospital; E agora me mandaram fiscalizar justo este lugar, cheio de roubos e de má gestão. Meu pai nem estava tão doente! Veio até aqui porque não tínhamos dinheiro para pagar um médico particular. Trabalhou a vida toda para me dar estudo e me fazer doutor. Morreu porque me amava e, porque me amava, aceitava sempre o segundo lugar. 

Os olhos dele se enchiam de um sentimento denso. Talvez fosse raiva. Não o julgaria se fosse esse o sentimento.

Também fiquei com raiva.

-O que houve com seu pai, doutor? _foi a pergunta ousada da enfermeira. 
-O hospital estava lotado. Os médicos não realizavam suas tarefas e a equipe de enfermagem era relapsa com seus deveres. Os corredores estavam lotados com pessoas nas macas e cadeirantes; não havia espaço nos quartos. Disseram que me pai se engasgou e não havia ninguém para o ajudar. Ninguém ouviu os gritos dos pacientes ao lado, pedindo ajuda. Percebi que quando o descaso acontece no coletivo, ninguém se sente culpado. Não há responsáveis e, apesar de haver morte, não existem assassinos.

Houve um silêncio oco. Aquela conversa não me subia ao coração, ficara como um peso no estômago.
É difícil ver gente sofrendo. Mais difícil ainda é ver homem de terno desaguando o pranto; e o luto.

-Quiça Deus tivesse olhado para as minhas circunstâncias e recompensado as boas ações minhas e do meu pai. Teria me livrado dessa dor, ou então me dado a dádiva das dores menores; não estas que me pesam chumbo e são mais infinitas que o oceano. _disse o moço como se confessasse seus pensamentos a um padre ou a qualquer outro líder religioso.

O quarto ficou ainda mais em silêncio, e a enfermeira nem se deu o trabalho de esboçar qualquer som ou explicação.

- Às vezes culpo a Deus por ter deixado tudo isso acontecer. _continuou o moço_ Tento não culpa-lo. Todos os dias eu tento, e me pesa a culpa por não conseguir...

Jamais esquecerei quando, naquele instante, seus olhos se agarram aos meus. Ele dissera seus pensamentos mais profundos e, agora, me olhava como quem pedisse respostas.
Apesar da conversa terminar sem ponto final, foi possível visualizar o moço carregando sua dor ao partir.
Nem mesmo seus sapatos finos conseguiram tornar seu caminhar mais leve.

...

Prece: Que quando me deparar com a dor que ela seja, ao menos, suportável.

....
Abraços,

Luciana Leitão (Lu Poulain!)
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