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terça-feira, setembro 09, 2014

O amor pode nos machucar

Imagem: Tumblr

Sou movida por música. Frequentemente sou aquele tipo de pessoa que ouve a mesma canção uma centena de vezes, até absorvê-la. Aconteceu hoje.

Ouvi uma canção que, traduzida, dizia: “Amar pode machucar, amar pode machucar às vezes, mas é a única coisa que conheço”. E qualquer que seja o nível de amor que usemos como exemplo, é verdade, amar pode machucar. Acertando e errando, já aprendi que o amor humano é imperfeito.  Creio que somente o amor divino expresso na cruz de Cristo é capaz de nos completar, pois todos os demais amores, familiares, fraternos e românticos, podem nos machucar. E pior ainda, é que podemos machucá-los também. Já estive dos dois lados da moeda em todos esses níveis de relacionamentos, errei e erraram comigo. O fato é que estamos sujeitos a decepções e, por ironia, elas costumam ser uma generosa escola de aprendizado.

Acredito que a grande questão não está em machucar ou ser machucado, mas em nunca mudar o status de uma ou outra condição. É preciso que haja mudança de atitude. Não raramente, encontro pessoas com origem, cultura, oportunidades e experiências distintas na vida, mas que têm em comum o alimentar “eternamente” seus corações partidos. São incapazes de abandonar a decepção e seguir adiante. Contudo, não desdenho a dificuldade de recuperação de um amor desfeito, mas creio em sua possibilidade. O mal está em apegar-se a um amor como se a própria dor fosse capaz de fazê-lo renascer, puro e forte, no coração do outro outra vez. É o tipo de sentimento que adoece a alma. Há quem nunca mais volte a experimentar o amor.

Ouvi ainda na canção: “Amar pode curar, amar pode consertar a sua alma, e ele é a única coisa que eu conheço”. Se o amor pode nos machucar, é verdade que ele mesmo pode nos curar. Amar pode ser veneno e, igualmente, pode ser antídoto. Não importa que tipo de amor foi partido, a decepção pode ter sido causada por seus pais, filhos, algum amigo ou ainda,  por seu  par romântico. Para quem partiu seu coração, é preciso oferecer-lhe perdão, porque é importante que haja em você humildade o bastante para perdoar e se recuperar. Por outro lado, você pode ter causado essa dor, de modo que é imprescindível que haja em você humildade o suficiente para se desculpar com sinceridade, aprender com seus erros e não arrastar-se pelo caminho restante se desmanchando em culpa. Algumas vezes é necessário perdoar-se antes de prosseguir. Por fim, não dá para garantir que jamais seremos os algozes de um amor ou vítimas dele e, ainda assim, é preciso arriscar.

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ao som de “Photograph” – Ed Sheeran
#2 Andréa Cerqueira - (@acspira)



quinta-feira, julho 03, 2014

É sempre tempo de recomeçar...




O que é o des-espero senão o cansar-se da esperança,
quando a espera parece que nunca alcança,  quando a alma se cansa de tanto esperar.

 
E o que se tem é solidão, é quietude, silêncio que não pacifica, 
silêncio que mudo grita, alma cansada e aflita, sem lugar para repousar.

 
Faz-se uma prece silenciosa, olhos molhados, alma sequiosa,
o silêncio é a resposta, no céu estrelas a brilhar.


Em tempos de des-esperança,
em Deus minha alma espera, só nele minha alma descansa.

Aprende-se a partir o pão quando o que se tem é solidão,
respeita-se a dor alheia, quando percebe-se que é sangue que corre na veia.

 
Quando o dia chega e sobrepõe a madrugada,
muda-se a estação da vida, alma fica humanizada.

 
Por aqui é primavera, verão, outono e inverno,
por aqui não é eterno, é sempre tempo de recomeçar...
 
 
Beatriz Pereira
 

quarta-feira, junho 25, 2014

Porque o Reino é um reino de amigos... e alguns são mais chegados do que irmãos.



"Quem aumenta o número de amigos é sábio". (Provérbios 11: 30b)

Penso que essa é, e, sempre será a melhor tradução para o texto de Provérbios, ao invés, de o tão famigerado e já desgastado texto "quem ganha almas é sábio".

Se bem que fazer amigos é, necessariamente, "ganhar a alma" de alguém, mas por razões que são minhas, eu prefiro muito mais dizer: é muito sábio fazer amigos.

Fazer amigos, ter amigos, e, principalmente, ser amigo...

Tenho amigos que de tão próximos assemelham-se a irmãos, há amigos com os quais eu me encontro pouco, mas tenho-os sempre no meu coração. Ter um amigo é converter o seu coração a outro coração, é permitir-se ser habitado pelo ser de outro alguém.

Amizade é uma conexão inexplicável de almas que nos completa e nos acalma, nos faz querer seguir em frente.

Procuro não ser um peso desnecessário para os meus amigos.

É um prazer enorme para mim conhecer os amigos dos meus amigos.Tenho amigos que me ajudaram a levantar quando os problemas e as aflições da vida tentaram de alguma forma me paralisar. Outros me ajudaram a enxergar quando as muitas lutas e decepções tentaram turvar a minha visão.

Meus amigos são muito importantes para mim, mas entendo perfeitamente que eles têm suas prioridades e não vivem especificamente para mim.

Já tive amizades que me desconstruíram, me fizeram ver em mim traços de uma personalidade que eu até então desconhecia. Outras amizades me construíram, me fizeram querer ter em mim qualidades que eu nem sabia que existiam.

Sim! Há muita sabedoria no fazer amigos e preservá-los, no conhecer tantas pessoas tão diferentes de mim e desenvolver com elas uma relação de amor, respeito e cuidado. Eu me conheço nesse processo de interação, aprendo a não ultrapassar os limites do bom senso, torno-me uma pessoa mais generosa, me humanizo. 

Disse o poeta: "Eu poderia, embora não sem dor, perder todos os meus amores, mas enlouqueceria se perdesse todos os meus amigos."

Eu enlouqueceria de qualquer forma, meu amor é um dos meus melhores amigos.

Beatriz Pereira


segunda-feira, fevereiro 10, 2014

...

E não é que a vida tem dessas coisas? Quanto mais alguns torcem contra, mais os ventos sopram a nosso favor?

Roberta Lima

sexta-feira, fevereiro 07, 2014

Os Salmos: a anatomia da alma humana

 
Os salmos constituem uma  das formas mais altas de oração que a humanidade produziu. Milhões e milhões de pessoas, judeus, cristãos e religiosos de todas as tradições, dia a dia, recitam e cantam salmos, especialmente os religiosos e religiosas e os padres no assim chamado “ofício das horas”diário.

Não sabemos exatamente quem seus autores, pois eles recolhem as orações que circulavam no  meio do povo. Seguramente muitos são de Davi (século X a.C). É considerado, por excelência, o protótipo do salmista. Foi pastor, guerreiro, profeta, poeta, músico, rei e profundamente religioso. Conquistou o Monte Sion dentro de Jerusalém e lá, ao redor da Arca da Aliança, organizou o culto e introduziu os salmos.

Quando se diz “salmo de Davi” na maioria das vezes significa: “salmo feito no estilo de Davi”. Os salmos surgiram no arco de quase mil anos, nos lugares de culto e recitados pelo povo até serem recopilados na época dos Macabeus no século II.a.C. O saltério é um microcosmo histórico, semelhante a uma catedral da Idade Média, construída durante séculos, por gerações e gerações, por milhares de mãos e incorporando as mudanças de estilo arquitetônico das várias épocas. Assim há salmos que revelam diferentes concepções de Deus, próprias de certa época, como aqueles, estranhas para nós, que expressam o desejo de vingança e o juízo implacável de Deus.

Os salmos testemunham a profunda convicção de que Deus, não obstante habitar numa luz inacessível, está em nosso meio, morando como que numa tenda (shekinah). Podemos chegar a Ele, em súplicas, lamentações, louvores e ações de graças. Ele está sempre pronto para escutar.

O lugar denso de sua presença é o Templo onde se cantam os salmos. Mas como Criador do céu e da terra, está igualmente em todos os lugares, embora nenhum possa contê-lo.

Com razão, se orgulhavam os hebreus dizendo: “ninguém tem um Deus tão próximo como nós”! Próximo de cada um e no meio de seu povo. Os salmos revelam a consciência da proximidade divina e do amparo consolador. Por isso há neles intimidade pessoal sem cair no intimismo individualista. Há oração coletiva sem destituir a experiência pessoal. Uma dimensão reforça a outra, pois cada uma é verdadeira: não há pessoas sem o povo no qual estão inseridas e não há povo sem pessoas livres que o formam.

Ao rezar os salmos, encontramos neles a nossa radiografia espiritual, pessoal e coletiva. Neles identificamos nossos estados de ânimo:  desespero e alegria, medo e confiança, luto e dança, vontade de vingança e  desejo de perdão, interioridade e fascinação pela grandeza do céu estrelado. Bem o expressou o reformador João Calvino (1509-1564) no prefácio de seu grandioso comentário aos salmos:

“Costumo definir este livro como uma anatomia de todas as partes da alma, porque não há sentimento no ser humano que não esteja aí representado como num espelho. Diria que o Espírito Santo colocou ali, ao vivo, todas as dores, todas as tristezas, todos os temores, todas as dúvidas, todas as esperanças, todas as preocupações, todas as perplexidades até as emoções mais confusas que agitam habitualmente o espírito humano”.

Pelo fato de revelarem nossa autobiografia espiritual, os salmos representam a palavra do ser humano a  Deus e, ao mesmo tempo, a palavra de Deus ao ser humano. O saltério serviu sempre como  livro de consolação e fonte secreta de sentido, especialmente quando irrompe na humanidade o desamparo, a perseguição, a injustiça e a ameaça de morte. O filósofo francês Henri Bergson (1859-1941) deu este insuspeitado testemunho:”Das centenas de livros que li nenhum me trouxe tanta luz e conforto quanto estes poucos versos do salmo 23: O Senhor é meu pastor e nada me falta; ainda que ande por um vale tenebroso, não temo mal nenhum, porque Tu estás comigo”.

Um judeu, por exemplo, cercado de filhos, era empurrado, para as câmaras de gás em Auschwitz. Ele sabia que caminhava para o extermínio. Mesmo assim, ia recitando alto o salmo 23: “O Senhor é meu pastor…Ainda que eu ande pela sombra do  vale da morte, nenhum mal temerei, porque Tu estás comigo”. A morte não rompe a comunhão com Deus. É passagem, mesmo dolorosa, para o grande abraço infinito da paz eterna.

Por fim, os salmos são poesias religiosas e místicas da mais alta expressão. Como toda poesia, recriam a realidade com metáforas e imagens tiradas do imaginário. Este obedece a uma lógica própria, diferente daquela da racionalidade. Pelo imaginário, transfiguramos situações e fatos detectando neles sentidos ocultos e mensagens divinas. Por isso dizemos que não só habitamos prosaicamente o mundo, colhendo o sentido manifesto do desenrolar rotineiro dos acontecimentos. Habitamos também poeticamene o mundo, vendo o outro lado das coisas e um outro mundo dentro do mundo de beleza e de  encantamento.

Os salmos nos ensinam a habitar poeticamente a realidade. Então ela se transmuta num grande sacramento de Deus, cheia de sabedoria, de admoestações e de lições que tornam mais seguro nosso peregrinar rumo à Fonte. Como bem diz o salmista: “quando caminho entre perigos, tu me conservas a vida…e estás  até o fim a meu favor” (Salmo 138, 7-8).

Leonardo Boff é autor de  O Senhor é meu Pastor: consolo divino para o desamparo humano, Vozes 2013.

quinta-feira, fevereiro 06, 2014

Parar, escutar, acolher

 


por Fabrício Cunha

Era pra ser simples.
Alguém começa a falar algo pessoal, importante, a se abrir, a contar a sua história, nós devíamos, automaticamente, parar e ouvir. Só isso.
Parar e escutar e acolher.

Parar – num mundo onde estamos todos ocupados, não temos tempo para parar e oferecer ao outro aquilo que temos de mais precioso, nossa atenção. 

Escutar – é mais que ouvir. É colocar o corpo todo, não só os ouvidos, em estado de atenção a quem e ao que se está ouvindo. 

Acolher – é deixar aquilo que está sendo compartilhado entrar pelos ouvidos, percorrer o caminho da alma, até chegar em paz ao coração. É o passo mais difícil. É difícil porque sempre achamos que temos algo a dizer, que já sofremos aquilo, que sabemos o que o outro está sentindo, porque adoramos oferecer receitas simplistas para questões complexas.

Nossa dificuldade de lidar com a intimidade, nos impele a relações cada vez mais superficiais e funcionais.
O remédio ainda é a boa e velha, como diz Rubem Alves, escutatória.
Tão simples..

quarta-feira, fevereiro 05, 2014

Gestão e Felicidade

Gestão e Felicidade

por Ed René 




A Bíblia não define felicidade, diz Ariovaldo Ramos, mas descreve o tipo de gente que é feliz. Ao analisar o Salmo 1, disse que “feliz é aquele que sabe onde está o verdadeiro prazer”, a saber, na meditação na Lei do Senhor, isto é, a Lei do Amor, pois toda a Lei se resume em amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo. Aqueles que entram na dinâmica do amor se distinguem dos rebeldes, dos escarnecedores e dos ímpios, isto é, se submetem a Deus e seu jeito de fazer as coisas, em detrimento de se associarem com aqueles que desejam construir um mundo sem Deus.

O mundo sem Deus é um mundo estressado e estressante, onde o homem tenta desesperadamente resgatar o paraíso às custas de suas próprias forças e às expensas de tudo e todos. O mundo com Deus (ou de Deus) é um mundo descrito em linguagem orgânica, viva, através das imagens “árvore, folhagens, frutos, fontes de águas, vento”. Na dinâmica do amor, a vida tem balanço, obedece ciclos onde cada coisa acontece a seu tempo.

Esta visão conduz à afirmação de que “nada no universo frutifica o tempo todo”, o que confronta dramaticamente o espírito moderno de busca frenética de resultados. A árvore plantada junto aos ribeiros de águas dá seu fruto na estação certa. Não se promete fruto todo dia e toda hora. O que se promete é uma folhagem viçosa, isto é vitalidade da árvore, ou se preferir, uma árvore que sempre dará fruto na época de dar fruto. Enquanto a economia humana está baseada em fazer para garantir resultados, a economia divina está baseada em ser para garantir vitalidade. A convicção é que “todo ser vivo frutifica”, em contraposição à falsa afirmação de que “todo ser ativo produz o tempo todo”.

O que isso tem a ver com felicidade? O que isso tem a ver com gestão? E o que gestão e felicidade tem a ver com isso? Compreendo que felicidade, aqui, significa satisfação: ver o fruto do seu trabalho e ficar satisfeito, dizer ao final: “Isso é muito bom, isso é suficiente”. Aqueles que compreendem que nada no universo frutifica o tempo todo, terão paciência no tempo de arar a terra, aguardar a chuva, semear na estiagem, e esperar as flores e frutos. Ao final, apesar das lágrimas dos processos, voltarão com alegria, trazendo sua colheita abundante. Aqueles que quiserem frutificar o tempo todo se arremessarão freneticamente no ativismo, levarão a terra à exaustão, atropelarão pessoas, precipitarão processos, e ao final ficarão frustrados e desiludidos a se perguntar o porque do fracasso após tanto trabalho. Por esta razão, acredito que felicidade e gestão têm tudo a ver com isso.

O segredo não é trabalhar sem tréguas esperando resultados diários e imediatos. O segredo é trabalhar em sintonia com a dinâmica do amor e os ciclos da vida, garantindo que as árvores estejam plantadas junto às correntes de águas e zelando para que cada árvore tenha sua folhagem brilhando de vitalidade, na certeza de que no tempo certo, darão seu fruto. O difícil é saber, no contexto da gestão e operação, onde estão as correntes das águas.

© Ed René Kivitz

sexta-feira, janeiro 31, 2014

Aprendiz de mim #13: a questão das sementes



Viver é também aprender. Apreender. Ensinar. Trocar. Deixar por vezes a banda passar, a música tocar, seguir o fluxo, olhar os ventos, deixar livres os pensamentos. Todavia, há horas em que  alguns aprendizados merecem ser registrados. Algumas experiências da existência merecem ser anotadas para que o correr da vida que há tudo leva de roldão, não nos deixe esquecer o que é preciso lembrar e por que não, relembrar?

Parei a pensar sobre as sementes há algum tempo. Os caminhos que me levam até elas são dos mais variados.

Posso dizer que 2013 me ensinou que não saímos pelo caminho sem sementes. Ensinou-me ainda que as mesmas são aradas em terra seca e que a chuva necessária na estação devida vem em um tempo que não pertence a mim.

Aprendi ainda a importância de semear e saber esperar. Esperar a terra pronta, as águas virem, a semente brotar.

Aprendi sobre a qualidade das sementes.

Aprendi que algumas crescem  rápido e que produzem belezas fugazes. Outras parecem que não vão irromper a terra escura, sufocante e quando se levantam frágeis sobre a superfície da terra, necessitam de cuidados especiais, pois se arrancadas assim com raízes pequenas são facilmente alvos de destruição.

Aprendi que semente também floresce e que algumas voam e se fecundarão em lugares inimagináveis.
Apendi que muitas vezes caminhamos como disse o salmista, levando a preciosa semente, andando e chorando e temos que carregar em nosso coração a fé que diz que voltaremos com alegria, trazendo os feixes da colheita em nossas mãos.

Aprendi que pragas podem vir para destruir nossa lavoura e que por vezes perderemos tudo ou quase tudo, menos a força para continuar a semear.

Aprendi que há sementes falsificadas, cujas cópias são quase idênticas à verdadeira, mas cuja essência pode ser mortal.

Aprendi que não colhi ainda tudo que plantei. Que algumas coisas talvez jamais colherei. Que por outras ainda algum tempo esperarei .

Aprendi por fim que todos os dias é preciso levantar, tomar um punhado de sementes de sonhos e sair pela estrada a caminhar. E que algumas sementes se plantam com risos e outras se adubam com lágrimas.Mas que o importante mesmo é semear.

Aprendendo sobre sementes, terras e colheitas,


Roberta Lima

terça-feira, janeiro 07, 2014

Caridade e Solidariedade


segunda-feira, janeiro 06, 2014

Como ver a dor e não se comover?


Como ver a dor e não se comover?
Como ver?
Como viver?
Como conviver?
Como não se ver no outro?
No semelhante tão diferente?

O grito silencioso dos desvalidos.
O tormento dos incompreendidos.
O choro sufocado e reprimido de tantos perdidos.
Perdidos de si.
Perdidos em si.
Perdidos aqui e ali.
Alheios às dores do humano.
Estranhos à frágil humanidade.
Vazios de sentido.
Vazios no sentir.
Na sofreguidão de possuir, as mais variadas injustiças tendem a consentir.
Como não sentir?
Como não se ressentir?

Como não esmorecer diante do vago mundo?
Vasto mundo por vezes tão vagabundo.
Como ser interrogação em meio a tantos pontos finais?
Como ver tantas perguntas sem respostas?
Como viver com tantas inquietações?
Como conviver com tudo isso que lacerantemente dói?
Vida que dói e corrói.

Como viver com paixão?
Como exercer compaixão?
Como ver e não se comover?

Como conviver?
Como viver?
Como simplesmente ser?

Roberta Lima

Poesia do dia:

...Meu Deus, por que o mundo me comove tanto? É só dar dois, três passos, ver o olho do cavalo, o olho da vaca, ver o homem meu Deus, o homem, esse abismo mais fundo que me come, meu Deus, a memória tristíssima de tanta inocência, como  eu gostaria de arrancar a minha pele sem medo e mostrar meu todo para o outro.(Hilda Hist)

Oração do dia:

Que possamos ver a dor, nos comover e assim nos mover, como o Mestre, que movido por íntima compaixão tocava ao seu próximo.

quarta-feira, outubro 30, 2013

Estrelas cadentes - Um Poema

Disseram que hoje haveria
chuva de estrelas cadentes
Noite assim jamais ousaria
manter meus olhos ausentes

Mas justamente esta noite
o céu estava nublado.
Foi como levar um açoite
por ter ficado acordado

Ainda que o show aconteça
Meus olhos não o verão
Acima da nuvem espessa
bem distante do meu chão

Ouvi que certo cometa
de cauda esplendorosa
se aproxima do nosso planeta
nos deixando em polvorosa

Brilhará mais do que a lua
Quando cheia em sua glória
Desfilando pela noite nua
em sua órbita aleatória

Mas de quê me valerá?
Só será visto em outros céus
Que diferença me fará
Seja entre heróis ou entre réus?

Terei que me conformar
e assistir pela TV
Ou um site acessar
caso insista em não perder

A sensação não é a mesma
pela tela fria de plasma
 Pois sou gente, não lesma
Carne e osso, não fantasma

O coração não dispara
A respiração não ofega
Nem é coisa tão rara
à que a alma se apega

Não posso ser injusto
pois poucas vezes vi
Como que num susto
do céu algo estranho cair

Qual foi minha surpresa
Quando sem qualquer aviso
Uma bola de fogo acesa
Rasgou-me o céu e o riso

Mas só mesmo eu vi
Não foi notícia nos jornais
E com quem eu reparti
duvidou, nem conto mais

Triste é a expectativa
Que não é correspondida
Parece não ser nociva
Mata aos poucos, reprimida

Não quero buscar noutros céus
Ter que deixar o meu chão
Prefiro enxergar entre os véus
Dar asas à imaginação

Por isso, prossigo a esperar
Pela noite ou pelo dia
Em que o céu limpo estará
e eu entregue à poesia

Autor: Hermes C. Fernandes

quarta-feira, setembro 18, 2013

Dor



"Você não sabe quanto tempo durará a sua dor, mas sabe que enquanto ela doer estará sendo fortificado hoje, para suportá-la amanhã e assim, dia a dia, sua dor vai diminuindo diante da força que ela mesma construiu em você."

G. de Araújo Lima Conheça o blog do autor clicando aqui.

quinta-feira, junho 13, 2013

Um Tempo


Tereza Rodrigues

Chega uma hora na vida em que a gente necessita de um tempo...

Pra pensar, analisar, a vida melhor administrar

Ver o vento correr.

Até ele para “pra ver a banda passar”

Um tempo pra curtir,refletir e harmonizar

A própria vida com outros olhos mirar

Caminhar na praia e o pôr‐do‐sol admirar

Tempo de mudança, fecha‐se aqui, abre‐se lá

Novos ares e mares a conquistar

E as paredes do casulo confeccionar

Com saudades vou ficar

Mas nos veremos em breve


Quando o tempo passar.

quarta-feira, maio 29, 2013

Inteligência (e bom testemunho) na madrugada

Rubinho Pirola
Nada forçado, apesar do entrevistado ser um artista, músico, e... crente.
Assim vi a entrevista do ex-Paquito Alexandre Canhoni, ou Xand, no programa Agora é Tarde do comediante Danilo Gentili na Band.
O que podia ser mais do mesmo, aquela do ex-artista fracassado que se converte e nem bem esquentou já está desfiando uma pregação repleta de chavões e frases-feitas. 
Não que seja tarefa fácil tapar a boca de um novo convertido, cheio de gás, de paixão por Cristo... mas infelizmente não é disso que estou falando. Geralmente, alguém assim, desfaz qualquer má impressão por um testemunho convincente. A paixão não é algo bem comportado e com modos.
Infelizmente, temos visto mais do primeiro exemplo.
O que temos assistido nas nossas TVs é uma teologia de buteco, pregações rasas e geralmente imbecis  e pregadores sem modos (entendamos: sem educação, que não ouve, não respeita o outro), presunçosos e de uma vaidade que beira ao ridículo.
Fui premiado ontem ficando até tarde.
O assunto principal foi a solidariedade (do ax-artista que largou tudo, vive com a esposa no Níger, segundo país mais pobre do planeta, com 15 filhos adotivos e mais de um milhar de abrigados no seu projeto humanitário)...
A fonte desse trabalho, o que o motivou a fazer o que faz e a sua conversão dos valores e princípios, vieram puxados pelo microfone do entrevistador, abertamente – e sinceramente – interessado nas obras que sinalizavam algo maior. A raiz estava na fé do entrevistado, fruto do seu encontro com Jesus.
Nada mal para quem já começa a acreditar na estúpida mania de perseguição – quase esquizofrênica dos crentes de hoje. Só têm sido atacados e perseguidos os que teimam em parecerem-se, em apresentarem-se idiotas (não estou sendo juiz, só digo que aparentam ser, rsrsrsrs).
Com esse tipo – idiota – de pregação, de testemunho, ou o que queiramos chamar no alto do nosso exercício do “evangeliquês” – temos mais é que levar pau. E sermos perseguidos.
E que saudade do tempo em que éramos perseguidos pelo nome de Cristo...
Quem desejar conhecer o trabalho, deve acessar: http://guerreirosdedeus.com.br/

domingo, abril 21, 2013

Ainda sobre Brennan Manning



Todos que conheciam a vida e o trabalho de Brennan Manning lamentam, ainda, sua morte tão recente. Uno-me a todos; anteontem publiquei, aqui, o necrológio (elogio fúnebre) desse precioso companheiro de caminhada. Nunca o conheci pessoalmente, nunca "caminhamos" juntos, mas sem dúvida trilhamos o mesmo percurso, procurando ser seguidores de Jesus.

Algo me incomoda, no entanto. Não pude checar em todos os livros de Manning publicados no Brasil (não tenho todos), mas aqueles que examinei, bem como os sites evangélicos que vi acerca de sua morte, confirmam minha suspeita. Ninguém se refere à pertença de Manning à Igreja católica.

Conhecendo bem o mundo evangélico, do qual faço parte, imagino o porquê. Manning é publicado no Brasil pela editora Mundo Cristão; provavelmente seus editores temiam, e temem, que a revelação da pertença confessional de Manning pudesse ter um efeito negativo sobre a recepção de sua obra. Em outras palavras, temiam que muitos evangélicos não o fossem ler, se soubessem que era católico-romano.

Infelizmente devo concordar com esses editores. Muitos, sabendo disso, não o leriam mesmo. Registro isso com tristeza, porque ao longo dos últimos dez anos aprendi muito no diálogo com meus irmãos de confissão católica. Vejo-os, hoje, como seguidores comigo do mesmo Cristo; temos tradições diferentes, mas concordamos plenamente naquilo que constitui o coração de nossa fé.

Seria lamentável que as pessoas perdessem o acesso ao pensamento de Brennan Manning por saberem que ele era católico-romano. Todavia, tão lamentável quanto isso é saber que, apesar dos ventos favoráveis ao diálogo e à aproximação ecumênica soprarem há décadas, ainda há evangélicos capazes de se orientarem por atitudes preconceituosas contra os cristãos de confissão católica.

Não sublinho a pertença confessional de Manning por razões de controvérsia. Alguns me lerão com o seguinte pensamento: "Pra que frisar isso? O que importa é que seguimos todos a Jesus". Sim, é verdade. Mas, para o diálogo acontecer, importa muito saber quem somos. O diálogo ecumênico não significa a fusão de todos num único organismo, mas o respeito à diversidade possível de expressões da fé cristã. Para isso, para que possamos respeitar o outro cujas tradições não são as minhas, preciso primeiramente me conhecer, saber quem sou, ter certeza quanto às minhas próprias tradições e convicções. A partir daí, posso me aproximar do outro, ouvi-lo, aprender com ele. "Respeito" é, por assim dizer, o ambiente no qual ocorre esse tipo de aproximação.

Faço questão de sublinhar que Manning era católico, não por qualquer espírito faccioso (acho tão deplorável a frase "Sou católico graças a Deus" como acharia a frase "Sou evangélico graças a Deus", se elas partem de uma perspectiva sectária), mas porque esse era Manning. Nós somos nossa própria história e, se nos negam essa história, se ela é eliminada, uma parte de nós se perde. Manning era católico-romano e, a partir dessa legítima tradição da fé cristã, numa atitude de constante oferecimento de si ao Mestre, ele construiu uma trajetória que nos iluminou e nos iluminará para sempre.

Editoras evangélicas, sites da Internet, admiradores de Brennan Manning: tenham a coragem de fazer referência à pertença confessional dele. Com essa atitude vocês não estimularão o sectarismo; ao contrário, estimularão o diálogo e, como consequência, a cura das feridas do corpo de Cristo.

  Por Rui Luis Rodrigues no Facebook