quarta-feira, agosto 10, 2011

Aslam, Tash e Eu



Porém, o glorioso ser inclinou a cabeça dourada e me tocou a testa com a língua, dizendo: “filho, sê bem vindo!” Mas eu repliquei: “ai de mim, Senhor! Não sou filho teu, mas, sim, um servo de Tash!” “Criança”, continuou ele, “todo o serviço que tens prestado a Tash, eu o considero como serviço prestado a mim”. Então, tão grande era o meu anseio por sabedoria e conhecimento, que venci o temor e resolvi indagar o glorioso ser: “Senhor, é verdade, então, como disse o macaco, que tu e Tash sois um só?” O Leão deu um rugido tão forte que a terra tremeu (sua ira, porém não era contra mim), dizendo: “É mentira! Não porque ele e eu sejamos um, mas por sermos o oposto um do outro é que tomo para mim os serviços que tens prestado a ele. Pois eu e ele somos tão diferentes, que nenhum serviço que seja vil pode ser prestado a mim, e nada que não seja vil pode ser feito para ele. Portanto, se qualquer homem jurar em nome de Tash e guardar o juramento por amor a sua palavra, na verdade jurou em meu nome, mesmo sem saber, e eu é que o recompensarei. E se algum homem cometer alguma crueldade em meu nome, então, embora tenha pronunciado o nome de Aslam, é a Tash que está servindo, e é Tash quem aceita suas obras. Compreendes isto, filho meu?” Eu respondi: “Senhor, tu sabes o quanto eu compreendo.” E, constrangido pela verdade, acrescentei: “Mesmo assim, tenho aspirado por Tash todos os dias da minha vida.” “Amado”, falou o glorioso ser, “não fora o seu anseio por mim, não terias aspirado tão intensamente, nem por tanto tempo. Pois todos realmente encontram o que realmente procuram
Trecho de “A Última Batalha” - As crônicas de Nárnia (C.S. Lewis)



Esta é a última das 7 crônicas de Nárnia a qual foi inclusive premiada com a Carnegie Medal, uma das mais altas marcas de excelência da literatura infanto-juvenil.

Parece uma absurdez para muitos ler contos de fadas. C.S. Lewis foi um brilhante escritor, catedrático da centenária universidade de Oxford e bem define a importância de nos voltarmos para os contos de fadas, não de maneira escapista ou simplista, mas como uma forma de falarmos verdades de forma compreensível a todos e até mesmo divertida.

Eu mesma confesso que me diverti e me emocionei muito lendo todas as Crônicas e fico com a brilhante definição de Lewis acerca da indagação de infantilidade de tal feito:

“Quando me tornei homem, deixei para trás as coisas de menino, inclusive o medo de ser infantil e o desejo de ser muito adulto”

Mas não venho aqui fazer uma resenha literária, apesar de já te-la feito de forma minimalista....rs. Venho falar deste trecho que me saltou aos olhos, pois a ficção traduziu de forma eficaz muito do que está expresso nos evangelhos (sim, se você não sabe, o pano de fundo das fantásticas histórias de Nárnia é o cristianismo).
Lendo o trecho acima é impossível não lembrar de trechos como o de Mateus 25 quando Cristo irá separar os bodes das ovelhas e ouvirá perguntas em tom de surpresa questionando-o: “quando, Senhor te vimos com fome, nu, preso?”
E outros que ainda dirão : “Senhor, em teu nome fizemos isto ou aquilo” (Mateus 7) e Ele dirá: apartai-vos de mim que não os conheço.

Também lembro-me de um trecho do conhecido livro “A Cabana” em que o protagonista questiona Deus perguntando se Ele estava presente em todos os caminhos e se todos os caminhos o conduziriam a Ele, momento no qual é esclarecido com a simples e fantástica resposta: “Não importa qual caminho você esteja percorrendo, eu irei até lá para encontrá-lo”.

O Deus que é caminho, nos encontra muitas vezes em caminhos tortuosos, jogados à beira de estradas, cansados, maltrapilhos, sem fôlego, cegos, confusos e tudo isto porque segundo a verdade que brilha no evangelho: “Ele nos amou primeiro” e não “fomos nós que O escolhemos, mas foi Ele que nos escolheu.” (1 João 4:9 e João 15:16)

Assim como o jovem foi encontrado por Aslam e esclarecido que apesar de sua posição teórica parecer ser inclinada ao oposto do que era o Bem Eterno, suas ações práticas, seu coração buscava na verdade o Amor. Não esqueçamos nunca que é Ele quem sonda os corações. (Rm 8:27)

Traduziria o papo de Aslam com o moço da seguinte forma: tudo o que for pela vida, para a vida vem Dele, é Dele e para Ele, mas tudo o que é para morte, destruição e espoliação, ainda que nominalmente feito em nome de Deus passa ao largo do que o Pai reconhece como sendo Dele.

Vejo muito sendo feito e dito em nome Dele, mas se Einstein disse que Deus é "o legislador e a lei", emendo que Ele é também a Suprema Justiça, e ainda que estejamos debaixo da graça, o próprio evangelho da graça nos alerta que cada um será julgado por suas obras,. Não acredito em uma graça tão tacanha e minúscula que seja incapaz de transformar minhas atitudes e ações.

Fé e obras. Obras e fé.
Equilíbrio necessário, tênue e delicado...

Refletindo nisso queridos e desejando não ser mais uma a falar em nome Dele, fazer em nome Dele, mas estar longe Dele.

Em Amor e no Amor,

Roberta Lima

“Se quer saber em que uma pessoa realmente acredita, não apenas escute o que ela diz, mas observe o que ela faz” Brennan Manning
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