sexta-feira, novembro 25, 2011

Tristeza



Rubem Alves

Você, que diz que, se pudesse, trocaria seu nome por “Melancolia”, você me pergunta sobre as razões da tristeza. Me pergunta mais: sobre as razões por que há pessoas que se emocionam com coisas pequenas – as outras nem ligam e até se riem da sua sensibilidade -, o que lhe dá uma tristeza ainda maior, a tristeza da solidão.

Olhe, há tristezas de dois tipos. Primeiro, são as tristezas diurnas, quando o mundo está iluminado pelo sol. Tristezas para as quais há razões. Fico triste porque meu cãozinho morreu, porque o meu filho está doente, porque crianças esfarrapadas e magras me pedem uma moedinha no semáforo, porque o amor se desfez. Para essas tristezas há razões. Quem não sente essas tristezas está doente e precisaria de terapia para aprender a ficar triste. Tristeza é parte da vida. Ela é a reação natural da alma diante da perda de algo que se ama. O mundo está luminoso e claro – mas há algo, uma perda, que faz tudo ficar triste.

Segundo, são as tristezas de crepúsculo. O crepúsculo é triste, naturalmente. Não, não há perda nenhuma. Tudo está certo. Não há razões para ficar triste. A despeito disso, no crepúsculo a gente fica. Talvez porque o crepúsculo seja uma metáfora do que é a vida: a beleza efêmera das cores que vão mergulhando no escuro da noite.
A alma é um cenário. Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca, inundada de alegria. Por vezes ela é como um pôr de sol, triste e nostálgico. A vida é assim. Mas, se é manhã brilhante o tempo todo, alguma coisa está errada. Tristeza é preciso. A tristeza torna as pessoas mais ternas. Se é crepúsculo o tempo todo, alguma coisa não está bem. Alegria é preciso. Alegria é a chama que dá vontade de viver. 

Eu acho que essa tristeza crepuscular é mais que uma perturbação psicológica. Acho que ela tem a ver com a sensibilidade perante a dimensão trágica da vida. A vida é trágica porque tudo o que a gente ama vai mergulhando no rio do tempo.

“Tudo flui, nada permanece.”*. A vida é feita de perdas. Fiquei comovido, dias atrás, vendo fotos dos meus filhos quando eles eram meninos. Aquele tempo passou. Aquela alegria mergulhou no rio do tempo. Não volta mais. Há, assim, um trágico que não está ligado a “eventos trágicos”. Está ligado à realidade da própria vida. Tudo o que amamos, tudo o que é belo, passa.
Mas é precisamente desse sentimento que surge uma coisa maravilhosa, motivo de riqueza espiritual: a arte. Os artistas são feiticeiros que tentam paralisar o crepúsculo. Eternizar o efêmero. Todas as vezes que ouço aquela música ou leio aquele poema, o passado ressuscita. A beleza da arte nasce da tristeza. Se não houvesse tristeza, não haveria arte. Diz o Jobim: “Assim como o poeta só é grande se sofrer...”. Certo. Sem tristezas não haveria Cecília, Adélia, Pessoa, Chico, Beethoven, Chopin. A obra de arte ou é para exprimir ou para curar o sofrimento.

Mas há um limite. É preciso que a tristeza seja temperada com alegria. Tristeza, só, é muito perigoso. As pessoas começam a desejar morrer. Essa é a razão por que os deprimidos querem dormir o tempo todo. O dormir é uma morte reversível.

Quando a gente está com uma dor de cabeça, toma aspirina sem vergonha alguma. Quando a gente está com dor de alma, tristeza, algum remédio é preciso – para não querer morrer, para voltar a ter alegria.

Uma ajuda para a tristeza é conversar. Para isso é preciso alguém que escute, que entenda a tristeza. Muitas pessoas procuram terapia para isso: não porque sejam doentes mentais, mas porque precisam compartilhar sua tristeza com alguém que conheça a luz crepuscular.

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* Citação de Heráclito.

Reações:

5 comentários:

  1. Noossa muito lindo,amei!!!Eu já me senti assim,eu gosto muito de arte,e concordo plenamente que a tristez tem que ser temperada com alegria senão vira depressão,eu já tive depressão,já tive muita vontade de morrer,ficava o dia inteiro dormindo,se não fosse por Jesus hoje eu acho que com certeza não estaria mais aqui,eu sou evangélica,tenho um blog e me considero uma garota incomum,com gosto incomumm,utrasensível,que ama arte,ler,escrever,fotografia,falar do amor de Deus,moda,desenhar croquis e que passa bastante tempo visitando blogs,espero que vcs gostem do meu humilde blog,onde eu tento me expressar.
    palavrasdeumagarotaincomum.blogspot.com
    espero vcs lá,deixa um cmt e se puder segue:)

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  2. Nossa gosteii!! Eu sou uma menina sensivel eu vejo a tristeza como algo que esta errado em mim não a vejo mais como inimiga só sei que , sim, ela pode ser uma inimiga se eu estiver com ela sem querer explicações do por que estou triste. Alguns anos atraz eu não conseguia achar explicações quase entrei em depressão, mas percebi que a minha alma precisava de coisas boas , passei muito tempo ouvindo coisas ruins e verdadeiras e esuqeci das coisas boas verdadeiras...tem certas realidades que me entristecem muito , mas da para viver sem elas. eu sou uma menina sensivel, sou capaz de chorar por uma discusão boba, ou por que me esqueceram em algum lugar rsrss..mas bem , isso não é ruim, eu apenas sou assim, sou sensivel, eu amo o amor. Graças a Deus Ele tem me ajudado muito a me entender..rs.

    Bejus =]

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  3. Gostei muintisimo! Eh como se falasse diretamente pra mi, sou muinto sensível, choro muinto (escondida) ms odeio banca a melancólic...Aff... gosto d esconder o q sinto

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