terça-feira, dezembro 27, 2011

A menina e o vento





Era uma vez uma menina que se transformou em vento. Como assim, muitos devem estar a pensar! Você está falando que ela ficou invisível? Seria ela a filha daquela antiga heroína?

Não, não... o caso que agora conto é diferente. É bem simples, a menina era amiga do vento. Gostava de tê-lo bagunçando seus cabelos, beijando-lhe a face, envolvendo-a em abraços, sussurrando em seus ouvidos doces melodias.

Ela amava suas diversas facetas, ora brisa, ora tornado, ora misturado à tempestade, mas sempre com a mesma essência . Por vezes era essa mesma essência que também abalava as estruturas da menina. E de tanto andar com o vento a menina foi ficando parecida com ele. Vocês já notaram que as pessoas costumam ficar muito parecidas com seus amigos e familiares com quem convivem? Assim não foi diferente com a menina. Tinha horas em que ela sentia-se insustentavelmente leve, em outros momentos ela não resistia e abria os braços e ficava a girá-los como se quisesse alçar voo, até que a tontura lhe pegava e quase a jogava ao chão. Ela gostava dos movimentos inesperados, da coreografia que só o vento sabia dançar, das notas musicais que só seu amigo vento parecia saber tocar e assim prosseguia em sua caminhada que intimamente era imaginada como voo.

Ah, sim, claro! Seu maior desejo era voar lá no alto mais alto. Ela, com certeza, saberia bem melhor como o vento se sente, ou melhor, saberia o que é ser vento de verdade. Ver tudo bem pequenininho lá embaixo, passear entre as nuvens, acenar para algum bando de pássaros em migração e quem sabe até apostar corrida com um avião!

Voar, voar, voar para bem lá no alto poder ficar. Tirar algum cochilo em uma nuvem mais fofinha quando o cansaço batesse. Ficar na mira de um raio de Sol bem quentinho quando o frio gemesse.

Que sonho bom! Só de sonhar a menina já ficava feliz. Foi então que ela descobriu que a imaginação tem disso: nos faz voar sem sair do lugar. É só fechar os olhos e nos deixar levar.
A menina percebeu que asas ela não tinha e nem nunca teria. Que invisível jamais alguém a veria, mas que nada disso a impediria de ser como o vento. Afinal, esse era um dos seus sonhos e sonhos bons são mesmo assim, eles dão asas à nossa imaginação, colorem os nossos dias e nos enchem com os melhores sentimentos do mundo. Mas a menina que se transformou em vento aprendeu o maior dos segredos: Ela entendeu que se voa dentro do pensamento e que ter vento na cabeça não é ser cabeça de vento e também que vento ventando lá dentro era sonho soprado e realizado aqui fora. Que até poderiam controlar e prender sua vida em horas, regras, lugares e palavras, mas enquanto seu amigo vento lhe fizesse companhia, ela em liberdade sempre estaria.

E foi assim, toda feliz e dançando com o vento, que a menina entendeu essas sábias palavras:

“O vento sopra onde quer. Você o escuta, mas não pode dizer de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todos os nascidos do Espírito". João 3:8

Qual o destino da menina? Bem, assim como não sabemos para onde o vento vai, não podemos saber qual será o destino dela. Mas desconfio que depois que ela aprendeu a voar, todos os sonhos serão possíveis de realizar.


Roberta Lima
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