quinta-feira, novembro 10, 2011

Aprendiz de mim: a questão da virtualidade



Hoje vive-se a pós-modernidade ou a modernidade líquida como alguns já enunciaram, eu ousaria dizer que estamos quase numa era vaporosa, volátil, onde tudo se processa muito rápido, quase imperceptível mas ao mesmo tempo denso, pois somos expostos à montanhas de informações, contatos, possibilidades, os quais descartamos muitas vezes em um simples fechar de janela do sistema operacional, na simples exclusão de um perfil de uma rede social ou num simples ausentar-se do meio.
A pessoa que bate à janela do seu computador é diferente da que bate à janela de sua casa, bons tempos aqueles que nossos avós contam onde se jogavam pedrinhas nas janelas das moças,  faziam-se serenatas, para quem sabe arrebatar-lhes um olhar apaixonado. A escrita de um bilhete, que depois teria que ter toda uma logística para ser enviado, a espera da resposta...

Hoje em simples segundos, respostas vão e vem em rápidos cliques que roubam de muitos de nós a capacidade da emoção, da reflexão. No universo no qual transito profissionalmente, já fomos alertados para o modo como fomos condicionados a responder rapidamente, normalmente há uma norma, um padrão, são estes os tempos, é esta a hora, mas será que tenho que ser eu assim irreflexiva e agilíssima dentro desta hora e deste tempo?


Acredito que realmente não somos os mesmos depois da internet. Poderíamos dividir os tempos em A.I (antes da internet) e D.I (depois da internet). Calma! Isso não significa que tento colocar sua importância maior do que a de Cristo. É só uma analogia, ok? Como sei que sempre há religiosos beligerantes de plantão, às vezes preciso explicar o óbvio, mas prossigamos...


Ocorre que com toda esta evolução, com toda esta massificação, com todo este transbordar de coisas preciosas e viz na internet, percebo que muitos parecem ter resolvido por lá habitar. Apesar de ter a consciência de que hoje ela é um lugar: lugar onde pessoas fazem negócios, namoram, se confraternizam ou cometem atrocidades que prefiro não mencionar. A internet é um lugar. Mas é um lugar incompleto.






Explico:

Nela não cabem múltiplos sorrisos, que podem expressar gracejos, ironias, doces sentimentos. Nenhum “hahahaha”, “hehehehe”, “huahuahuahuaha”, kspofjpkspfk” ou um singelo “rs” alcancará  o que um sorriso de verdade pode nos trazer.


Nela não cabem múltiplos olhares, os mais variados tons da voz. Você pode até conjecturar que hoje temos o skype e tecnologias afins, onde podemos falar por vídeo ou voz, mas ainda assim não é a mesma coisa. De repente a conexão pode cair, e aquele momento espontâneo ficará lá...lá na internet, inalcançável e irrepetível para todo o sempre.


Presença é tudo. Digo e repito. Não é à toa que a base cristã é a de um Deus relacional, que não contente em nos orientar, resolveu em nós tabernacular.

E ainda que você não concorde comigo até agora, o fato é que na internet não cabem cheiros, não cabem gostos, não cabem toques, muitas vezes o tão precioso silêncio não cabe na internet. Nela normalmente não cabem os momentos ruins, as horas de lágrimas, de dor, de doenças, de feiuras e ranhuras.


Tudo deve ser esteticamente perfeito, as fotos são melhoradas por programas específicos, a maior parte das pessoas sorriem, são engraçadas. Como diz uma antiga piadinha do meio:


no twitter todos são inteligentes, no facebook todos são bonitos e no MSN todos estão ocupados”.


Há pessoas que parecem ser duas totalmente distintas: uma na internet, outra ao vivo e à cores, não é à toa que há anos existe uma espécie de programa de interação chamado “second life”. A insatisfação gera a fuga, mas uma fuga para um lugar que não existe, que será sempre incompleto de cores e sabores.


O Sol não nasce na internet, a Lua não se põe. O vento não sopra em nossos cabelos. O mar não respinga nossos pés e o mato não faz cócegas em nossas pernas.


Na internet há burburinho e há até observação, mas não veremos uma criança passar correndo, um idoso para ajudarmos a atravessar a rua, ou um cachorro fazendo estripulias pela calçada. Parafraseando “O Teatro Mágico” sobra tanta falta na internet. Sei de muitos que ali gostariam de para sempre estar, são famosos, são aceitos, admirados, amados. Mas é um mundo incompleto, por vezes superficial, irreal e que jamais produzirá os efeitos que a atmosfera de “terra firme” produz.




O homem anseia sempre por mais, navegamos por mares, voamos pelo espaço, hoje interagimos em um lugar não-lugar, mas sempre há a hora de voltar. Pisar em terra firme e lembrar-se de que o precioso e bom da vida te espera às vezes dentro de sua própria casa, na  sua esquina, ou quem sabe do outro lado do mundo, mas te espera... não deixe a travessia incompleta.

Termino com a frase de meu querido poeta Fernando Pessoa:


“É tempo de travessia e se não ousarmos fazê-la,
ficaremos para sempre à margem de nós mesmos”




Aprendendo a cada dia que a internet e toda a sua virtualidade não me cabem,


Reações:

3 comentários:

  1. "Podemos falar somente sobre o que conhecemos" dizem por ai,então vamos lá. Minha relação com o virtual é digna de análise, é melhorei muito, mas preciso melhorar mais. Há um tempinho atrás minha tia queria me internar alegando que sofria de TDI(Transtorno de Dependência da Internet)meu irmão acordava pela madrugada e me caguetava rsrsrrs "tia, ela não está normal" realmente NÃO estava.
    Presença é tudo...TUDO Robertinha!
    Eu perdia passeios,aniversários,conversas amigáveis para me relacionar com o desconhecido. Uma certa vez conversando com uma pessoa me chatiei de tal maneira que desliguei meu not e fui deitar. Analisando calmamente o que aconteceu me deu aquele 'ops!'.o que é isso Isa?
    Quanta bobagem, quantas palavras desnecessárias, quantos relacionamentos rasos e dispensáveis. Então decidi me disciplinar...procurar aquilo que acrescenta. Quando percebo que estou exagerando digo: "vou ali ver o céu". rs
    Outro dia lá no twitter um menino disse "eu tenho uma vida social, só não sei onde coloquei a senha" (KKKKKK) eu respondi a ele A senha é DOMÍNIO PRÓPRIO.
    Excelente texto Roberta, admiro-te moça e jamais será enfadonho demorar meu coração em tuas palavras. "minha preferida" bjuss

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  2. Maravilhoso texto!!! Passo aqui todos os dias para ler!

    PS: A fonte das letras poderiam ser de um tamanho bom de se ler. Possuo visão monocular, e me esforço um pouco para ler as letrinhas miúdas.

    Q Deus abençoe!

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  3. Olá anônimo,

    Que bom saber que vens aqui todos os dias...quanto às letras verei com as meninas do blog o que é possível fazer para auxiliar...

    Obrigada e Deus o abençoe!

    Isa,

    Queridí-ssi-ssi-ma muito obrigada por comentar, por compartilhar tua experiência, o desequilíbrio é um perigo e pode ser muito danoso...

    Bjks e bençãos!

    Roberta

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